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quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Pedaços de uma entrevista

Hoje vou jantar com um prestigiado professor universitário, desconhecido das massas mas muito conhecido no meio académico. Soube da sua existência em 1993, quando li uma entrevista publicada na saudosa revista K, dirigida por Miguel Esteves Cardoso, então bastante legível.
Entrevistado por Rui Zink, o professor Marques Bessa disse, entre outras coisas, o que se segue.

"...Em Maio de 68, naquelas revoluções ligeiras, os estudantes achavam que copular em frente do Arco do Triunfo ia mudar catastroficamente a França. Claro que não mudava nada. Copular no Arco do Triunfo ou copular aqui ao pé da Ribeira, é o mesmo: não altera coisa nenhuma, não tira o Cavaco do poder. Não há nenhuma revolução sexual que altere a estrutura do poder porque a elite está-se marimbando para isso. A sociedade dos homens não se baseia no sexo.
K - Então em que se baseia ?
O grande vínculo de união nas sociedades humanas é: uns mandam nos outros. E como é que se manda? Por eleição, por nomeação, por competição, por todos os sistemas.. Os que mandam, mandam. E tecem a estrutura que une todos através de uma hierarquia. As relações sexuais para que é que servem ? Servem para reproduzir indivíduos que são obedientes e outros que serão dominantes. Não servem para mais nada."
K - Qual seria a sua elite ?
Isso é um grande drama. Nós, na universidade, somos muito bons a criticar. Somos capazes de destruir tudo, mas quando nos perguntam: Então e o que é que você propunha?, temos dificuldades imensas em dar uma solução porque estamos cheios de dúvidas. A minha resposta é:o que nós precisamos é de uma sociedade forte. As elites são sempre grupos de interesses profundos de que temos de desconfiar.

K - Você levou a sério aquela coisa do Otelo: vamos meter os fascistas no Campo Pequeno?
Ah pois com certeza! E vamos limpá-los. Se o processo avançasse na sequência que havia sido projectada havia uns tipos que eram mortos. E portanto a tal revolução sem sangue tornar-se-ia uma revolução com sangue. Euaprecebi-me disso muito cedo. E por consequência quando chegou ao meu conhecimento que tinha um mandato de captura...Vou ser preso, todas as garantias individuais estão suspensas, fazem o que lhes apetecer. Estes tipos tomaram o poder, vão fazer o que lhes apetecer. E quando lhes vieram pedir responsabilidades eu provavelmente já estou debaixo da terra. Isso não me convém nada. Não gosto do frio, de modo que tratei de ir para Espanha. Vivi três anos em Madrid.

K - E a censura? Aceita um Estado que censure?
Nós não podemos pôr esse problema de aceitar ou não aceitar. Temos força ou não temos força para impedir isso. Se não temos força, nem vale a pena tratar disso. Todos os regimes querem imprensas de aplauso, todos querem, não é? Num país democrático querem imprensa democrática. Imprensa que elogia a democracia e a democracia assim e a democracia assado! Você não consegue publicar nenhum artigo contra a democracia porque eles não deixam. É uma censura difusa. Se quer publicar um livro também ninguém o edita.
K - Mas quer dizer, prefere essa...
Eu prefiro clareza nos assuntos. Preferia era que este tipos dissessem: isto é uma democracia, temos censura - que é uma forma difusa de censura - subsídios de jornais ou subsídios para papel ou outrs meios...
K Sinceramente, eu prefiro a hipocrisia democrática à sinceridade autoritária..
Bem, é como eu disse, do ponto de vista do destinatário do poder o que é que lhe interessa? Interessa-lhe uma elite frágil. Uma elite dividida em partidos que se autodigladiam. Com um regime autoritário, só uma sociedade forte é que se consegue defender dele.
K - Mas acha que é o caso de Portugal ?
A nossa sociedade é tradicionalmente frágil. Sindicatos nomeados por partidos e frágeis. Universidades que não conseguem dizer nada. Os reitores estão ali: o Sr. Ministro e tal, curvam a cachola, andam por ali e tal. Olhe para as igrejas, o que é que a Igreja diz? Coitados, batem no peito, curvam a cabeça e acabou. Nós não temos aqui interpelantes verdadeiros, que sejam forças sociais interpelantes do poder. A não ser, evidentemente, os partidos. Mas os partidos são o poder. "

A leitora eventualmente interessada em toda a entrevista pode encontrá-la na Biblioteca Nacional, na Hemeroteca Muncipal de Lisboa ou em minha casa. Revista K, nº. 32, Maio de 1993, p.18-27.