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A minha fotografia
Nome: Luís Neto
Localização: Lisboa, Portugal




terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Eleições I

Como me dei ao trabalho de fazer na cruz no quadradinho do Paulo Portas, como acompanho estes actos desde o distante ano de 1985, como anda tenho a esperança de um dia ganhar a vida escrevendo banalidades e como neste outrora dinâmico blogue mando eu, permito-me "esmiuçar" as eleições de domingo. Justificado, aventuro-me no exercício.
O PS perdeu mais de 500 mil votos, mais de 20 deputados, ficando pelos 36%, obrigado a arquivar a sua prepotência e a convocar o espiríto de negociação que detesta. Viciado em impor, terá que ceder, arreliar-se, ser polido, engolir propostas alheias. Com a satisfação do trabalhador que escapou ao despedimento, do marido a quem foi perdoada a infidelidade, Sócrates disse aos microfones ser uma "vitória extraordinária". E foi. Sobreviveu às promessas falhadas. Sobreviveu ao aumento do desemprego, do endividamento externo e das despesas do Estado. Sobreviveu à continuação da paródia do ensino e da justiça. Sobreviveu às investigações do jornal Público, que em vez de o levarem à demissão, apenas provaram imoralidade ou o desinteresse dos Portugueses, e a ficção que é achar-se a comunicação social o 4.º poder, quando é sobretudo agência de publicidade da classe política, entretenimento que nos alimenta a morbidez e a pena, nos ajuda a sonhar com viagens, nos estimula a consumir produtos culturais, vendendo-nos a ilusão de que estamos informados, temos opiniões, nos prestam contas e somos civilizados.
Optimista por artíficio, desenvolto a vitimizar-se, descarado a vangloriar-se, eficiente na distribuição de favores e na intimidação, patrão de um partido-polvo disciplinado, vocacionado para exercer o poder em seu próprio proveito, fodendo-nos sem escrúpulos se necessário, Sócrates sobreviveu por tempo ainda indefinido.
E com tantas linhas sérias dedicadas ao engenheiro, quase perdi a vontade de discorrer sobre o melhor político português desde Sá Carneiro: Paulo Portas. Mais logo, pego nele, salvo seja.

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sábado, 15 de Agosto de 2009

31 da Armada

Diverti-me a valer com a brincadeira dos meninos do blogue 31 da Armada, que subiram, durante a madrugada, à varanda dos Paços do Concelho, removeram a bandeira do município e hastearam a bandeira da monarquia constitucional. A acção foi filmada, divulgada e muito comentada. O Senhor D. Duarte não foi coroado rei de Portugal, mas a República foi merecidamente ridicularizada.
Foi gozada a Câmara Municipal de Lisboa. Monstrinho burocrático, patrão generoso, caloteira que vive acima das possibilidades, afogada em dívidas e empréstimos, a câmara não tem, entre os seus 10.000 funcionários, quem vigie a sua principal casa enquanto os serviços fazem ó-ó.
Foi gozada a gloriosa Polícia de Segurança Pública, entidade sempre disponível para registar as queixas das pessoas que são assaltadas por jovens delinquentes que fazem as delícias dos serviços assistenciais, e que possui mais de 25.000 funcionários nos seus quadros. Nas traseiras dos Paços do Concelho, a cerca e 50 metros, está uma esquadra da PSP. Por que não defenderam a varanda da ilegal invasão, os defensores da lei? Lanço algumas possibilidades, para escolha do improvável leitor e contribuição para o putativo inquérito que possa efectuar-se: a) os polícias estavam a dormir; b) os polícias estavam entretidos a conversar e a ver televisão; c) os polícias tinham saído para uma bifana e uma imperial; d) os polícias foram pagos pelos bloguistas para não agir; e) os polícias estavam a namorar e o amor não se interrompe, era o que faltava.

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sábado, 18 de Julho de 2009

Alberto João

Não posso deixar de enviar um abraço amistoso, um sorriso compreensivo, ao Presidente do Governo da Região Autónoma da Madeira, que teve a bondade de provocar as hostes, sugerindo a conveniência de se ilegalizarem os partidos comunistas. Como a Constituição proíbe a existência de organizações fascistas e racistas, Alberto João entende ser lógica a proibição de grupos que se reclamam do marxismo-leninismo, que apoiaram os cleptómanos e sanguinários socialismos africanos, que ainda admiram, aberta ou discretamente, Estaline, Mao, Fidel e outros ilustres déspotas. E Alberto João está certo: ou se autoriza a existência de todos ou se proíbe a existência de todos aqueles não apreciam a democracia e a ambicionam abolir: a discriminação macula e diminui o o sistema democrático, que altivo e forte, não devia recear a oposição; anula a solidez filosófica e a idoneidade jurídica do sistema, que não deve impedir a alguns a liberdade que teoricamente o caracteriza. Dando como certa a continuidade do sistema, dada a tutela da patroa União Europeia e ausência de elites que corporizem uma alternativa consistente, sou pela defesa da variedade ideológica, pela livre expressão das aberrações, sejam elas o comunismo, o racismo, as previsões astrológicas, os concursos das televisões, a futilidade dos diários desportivos.
Mas o milagre da ilegalização dos comunistas, que não se dará, seria uma oportunidade para muitos portugueses: como algumas dezenas de milhares teimariam em actuar colectivamente, o Estado teria que os perseguir: haveria mais polícias, mais juízes, mais cadeias. Os presos, que poderiam ler Cunhal na suas bem equipadas celas, libertariam milhares de vagas na comunicação social, nas editoras, nos sindicatos, nas artes subsidiadas, na administração municipal. O aumento da despesa pública que a repressão acarretaria, seria compensado com a poupança decorrente da diminuição das greves, com o aumento da produtividade do funcionalismo público e, ironicamente, com a ligeira subida da taxa de IRC tributada às entidades bancárias. É tentador, não é?

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segunda-feira, 6 de Julho de 2009

R de Ronaldo

Espreitei pela televisão, enquanto jantava graças à inesgotável generosidade da minha mãe, a apoteótica apresentação pública de Ronaldo como jogador do Real Madrid. Compreendi que estivesse com aquele sorriso triunfal e orgulhoso: dedicou muitas horas a refinar o seu talento e a desenvolver o seu corpo magnífico, entregou-se com muita confiança e ambição ao objectivo de integrar a elite dos craques do mundo da bola. Não pode senão estar contente quem saiu da pobreza anónima e chegou com merecimento à milionária fama mundial em dez anos. Compreende-se a felicidade de Ronaldo. O que não digiro é a atitude das televisões que, intencionais ou sem darem por isso, teimam em tratar os espectadores como idiotas e a si próprias se desqualificam. Será que o jornalista eufórico por relatar em directo a entrada de Ronaldo num jacto particular tem consciência da sua miserável figura? Será que os responsáveis por aquilo que deve ser objecto de notícia se dão conta de que os banais actos privados de uma vedeta não são jornalismo? Na verdade, pouco importa: fazem-no e continuarão a fazê-lo, alheios a princípios deontológicos, consolados pelas audiências e pela impunidade que o mau gosto, a falta de decoro e a demissão normativa do Estado proporcionam. Nas televisões, o lixo gerado engole quem o produz.

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sábado, 4 de Julho de 2009

Os cornos que chocaram

O ministro Pinho excitou-se, ontem, no Parlamento, durante mais um proveitoso debate sobre o "estado da Nação" e dirigiu um expressivo par de cornos ao deputado comunista Bernardino. Houve clamores de indignação, caras de pasmo, céleres exigências de demissão e desculpas, e até Socrates achou "injustificável" o gesto. O enervado Pinho, que nunca deveria ter sido ministro, foi corrido do Governo, e Sócrates pensa ter feito o que devia para amenizar a bronca. Que não o deveria ser. Recentemente, um obscuro deputado do PSD mimou de "cabrão" ou "filho da puta" um obscuro colega do PS e não foi expulso do partido nem perdeu o mandato. A política portuguesa, sobretudo se feita por carreiristas partidários, sempre foi o que ontem se viu: facciosa, agreste, maniqueísta. Discutem, mas não se respeitam. Enquanto se acusam, detestam-se. Todos atribuem ao adversário a incompetência, a irresponsabilidade, a demagogia; surpreendendo que, depois dos debates, uns e outros não chamem a polícia para averiguar as acusações e vigiar tão perigosas criaturas.
Um ministro deve ser demitido quando o seus programas não passam de intenções, quando ignora assuntos que deveria dominar, quando teima em erros, quando desrespeita a lei. Muitos ministros incorreram nestas fraquezas e não se demitiram nem foram demitidos. Demitir um ministro por razões de etiqueta, porque cometeu o lapso de gesticular o que lhe ia na alma, é uma hipocrisia, é condenar a genuinidade das emoções. O "sagrado respeito pelas instituições", lembrado por Cavaco, é um formalismo delirante.

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sexta-feira, 15 de Maio de 2009

Vendada

Não é preciso indicar que se trata de mais um lapidar cartoon do melhor cartoonista português, Afonso, o alentejano.

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quinta-feira, 14 de Maio de 2009

14 de Maio


Na madrugada do dia 14 de Maio de 1915, a Marinha revoltava-se contra o governo do general Pimenta de Castro, um cacique militar que tinha adiado as eleições, adiado a abertura do Congresso, e que, para cúmulo, se atrevera a flirtar os monárquicos. Lisboa foi bombardeada pelos navios de guerra. Em terra, milhares de civis armados juntaram-se aos insurrectos no Arsenal. Os combates duraram pouco, que a tropa destacada para sufocar o golpe preferiu mudar de lado a morrer sem glória. Depois de terminados aqueles, começou a revolução, com os militantes do Partido Democrático, que se tinham por zelosos defensores da jovem República, a tomarem conta da rua. Foi o pandemónio: assaltos e ataques a casas de adversários, a centros monárquicos, a jornais, a esquadras de polícia, a quartéis, ao governo civil. A ordem ajoelhada, o ódio vingativo imperante. Houve mais de 200 mortos e 1000 feridos. Naqueles dias, "Lisboa parecia uma cidade siciliana a braços com uma guerra entre mafias rivais." Em 2010, o regime que protagonizou este e outros exemplares episódios, será lembrado com muita pompa, muita despesa, muitos elogios, porque a República, agora velha, faz 100 anos.

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segunda-feira, 4 de Maio de 2009

Amigo Vasco

"Olá amigos", eram as suas primeiras palavras. Durante anos a fio, Vasco Granja, com voz tranquila e sorriso cumplíce, qual avô paciente, partilhou o seu imenso conhecimento dos "desenhos animados" com a garotada da época. Eu, e muitos dos que hoje estão na casa dos 30, devemos-lhe muitas horas de divertimento e de suave pedagogia. E como nos deu a Pantera cor-de-rosa e o Bugs Bunny, não custa desculpar-lhe o abuso dos filmes que vinham da Polónia e da Checoslováquia. Tinha 83 anos e ninguém o substituiu.

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sábado, 31 de Janeiro de 2009

Parlamento anedota

A mãe leva a filha à Assembleia da República. Conforme entram, a mãe diz-lhe:
- Agora tens que estar caladinha. Sabes porquê, não sabes?
- Sim, porque estão pessoas a dormir.

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quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

A queda do menino de ouro

Puxa, o Público, teimoso, não dá descanso ao nosso primeiro-ministro. Depois de nos dar a conhecer a impecável história da sua licenciatura e de divulgar os bonitos projectos de habitação do engenheiro em começo de carreira que sensatamente abandonou, o jornal volta ao passado do «menino de ouro do PS» e devassa agora as minúcias adminstrativas do processo de aprovação do empreendimento comercial Freeport, lançando suspeitas sobre a honestidade de Sócrates, ao entrever a forte possibilidade de ter havido pagamentos a Sócrates e seus colaboradores. Gabo o trabalho de investigação do Público. Mas quem não é funcionário do PS, ou filho de deputado do PS, ou sobrinho de vereador do PS, ou amante de secretário de Estado do PS, ou esposa de ministro do PS, ou avençado de ouro de um ocioso gabinete ministerial, há muito que não tem ilusões sobre o valor ético de Sócrates e sobre a urgência de nos livrarmos da criatura. Afastá-lo do cargo que nunca deveria ter ocupado, é devolver alguma decência à vida pública.

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domingo, 21 de Dezembro de 2008

Lápide

Lápide. Aforisma. Axioma.
«Portugal é uma comédia para quem pensa e uma tragédia para quem sente.»

segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

Açoreanos

Houve eleições nos Açores. A banalidade do acto não mereceria registo, se não se tivesse dado um notável facto, mesmo que destituído de qualquer consequência política ou jurídica. Apesar de insistentemente convidados a participar, apesar de muitos terem sido pagos para agitar bandeirinhas, bater palmas e sorrir enquanto distribuíam panfletos, a maioria dos eleitores absteve-se. Mais de 53% dos açoreanos não votou. Reconheceu que não vale a pena votar, porque votar é consagrar as organizações irresponsáveis que impunemente fazem dos recursos públicos um património que gerem em benefício das suas clientelas. Em vez de votar, fizeram a sesta, namoraram no jardim, visitaram a família. Como tenho para mim que em Portugal votar é um insulto, dignificaram-se. Sabendo que nada podem mudar, ao menos não se insultaram.

quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

A Marselhesa assobiada

A França, que adora excitar-se por motivos políticos, que é o país das paixões políticas, está agora, ofendida, a analisar e a discutir os assobios que ontem sofreu o seu hino nacional, antes do começo do jogo entre as selecções de futebol da França e da Tunísia. Prognostica-se "l' échec de l'intégration de masses étrangères à notre culture", lamenta-se que muitos "ne se sentent pas bien chez nous", ameaça-se que "tout match avant lequel la Marseillaise serait sifflée serait immédiatement arrêté". Compreende-se a indignação. O Estado francês leva-se a sério e quando milhares assobiam um hino não se pode assobiar para o lado e fingir que é um inofensivo e legítimo exercício de liberdade de expressão. Não é. Assobiar a Marselhesa é declarar a repulsa pela França, é insultar os franceses. Quem assobiou? Ao que parece, pelas fotografias vistas, jovens magrebinos, que não foram impedidos de entrar no estádio, que tiveram capacidade de comprar bilhetes, que trabalham e vivem em França, provavelmente muito ignorantes da história e garantidamente muito ingratos. A França é injusta com eles? A França não os merece? Pois então, voltem para Marrocos, para a Argélia ou para a Tunísia. A França passa bem sem eles.

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quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

O drama de Catarina

Catarina é uma jovem menina que em adolescente, planeando o seu futuro, tomou a sensata decisão de se inscrever num partido político. Aplicada, fez os seus estudos universitários, e cumpriu os seus deveres de militante. Terá colado cartazes, oferecido panfletos, assistido a reuniões, conhecido pessoas. Como em terra de cegos, quem tem um olho é rei, alguém deu pelas qualidades da Catarina e convidou-a a integrar uma lista de deputados. E a Catarina, encantada com a ideia de trabalhar na fábrica das leis que teoricamente o Parlamento é, aceitou. Milhares de pessoas que nunca tinham visto, ouvido ou lido a Catarina, milhares de eleitores que desconheciam a existência e o currículo da Catarina, votaram na tal lista em que figurava o seu nome. Os papéis com a cruz que marcam a igualdade política dos maiores de 18 anos, sejam eles cumpridores ou criminosos, inteligentes ou idiotas, foram contados, e a Catarina foi eleita deputada, elevada a digníssima representante dos representados que a ignoravam.
Ao contrário de muitos dos seus colegas, que limitam as suas funções a carregar no botão a favor ou no botão contra, e que nunca discursam, perguntam ou propõem; ao contrário destes colegas preguiçosos ou ignorantes, tímidos ou inadaptados, que nos lembram uma "ociosidade organizada", a Catarina discursa, pergunta, redige pareceres e projectos de leis. E a Catarina, moça com neurónios activos, fez-nos saber que está agora na embaraçante situação de votar contra a sua consciência, porque é a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo e o partido lhe determinou que votasse contra uma proposta de lei que visa reconhecer o casamento entre os homossexuais. Como é uma funcionária obediente, como sabe que deve o lugar ao patrão que a colocou na tal lista, a Catarina vai votar contra o que defende. Como muitos outros o tinham feito, a Catarina deu-nos uma real lição sobre a independência e a liberdade dos deputados: não existem. E eu cada vez mais me convenço que este Parlamento é uma instituição caríssima, irrelevante e dispensável.

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Filosofia portuguesa

Leio António José de Brito, professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras do Porto, que já conhecia por ser um altivo e sólido fascista. No livro Valor e Realidade, que reúne diversos textos de filosofia, escreve-se com impecável lógica, o seguinte:

«Seja como for, a pessoa humana, de que modo a consideremos como pessoa, enquanto humana, é sempre finita, limitada, particular. Ora o absoluto é enquanto tal infinito, universal, e não conhece limites. Por conseguinte, a absolutização da pessoa humana assemelha-se totalmente insustentável

sábado, 4 de Outubro de 2008

Pérolas judiciais

A Justiça anda desorientada. O que é compreensível porque o Governo não lhe facilita a vida: faltam recursos e os códigos estão inundados de inépcias jurídicas e sociológicas. Em dois dias, o sistema ofereceu-nos duas decisões que merecem registo. Assim, o Supremo Tribunal confirmou a legitimidade do despedimento de um trabalhador infectado com o vírus HIV e o Tribunal Criminal de Monsanto condenou um skinhead a dois anos e meio de prisão por "discriminação racial". Hoje, o vírus, porque há a possibilidade, por remota que seja, de o cozinheiro contaminar clientes, amanhã a obesidade, porque os clientes adoram gente magra; hoje, as imbecilidades racistas, amanhã outra qualquer imbecilidade, pois em matéria de opiniões imbecis, somos pródigos, inesgotáveis, infinitos. Ou seja, a Justiça reconhece o direito à discriminação por razões de saúde; e consagra e pune a existência de delitos de opinião. Outros, antes, com muito ardor, ingenuidade ou hipocrisia, escreveram e gritaram a "igualdade" e a "liberdade de opinião" como valores essenciais do nosso portugalzinho, intrínsecas à nossa maravilhosa "democracia". Mentiam. Como já se sabia, não são.

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terça-feira, 16 de Setembro de 2008

Silêncio

Acabei de o dizer a uma amiga de brilhantes neurónios, que me perguntava no que pensava eu. E eu, que em nada pensava, respondi-lhe que o silêncio tem uma auréola exageradamente respeitável, pois, na maioria das vezes é timidez, ignorância e vacuidade.

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domingo, 29 de Junho de 2008

Ressurreição





Sem ter ido a Jerusalém, este blogue ressuscitou, ou, mais profanamente, despertou de uma hibernação de dois meses. Estar dois meses sem escrever, quando todos os dias o mundo produz acontecimentos que podem provocar a escrita, não me é abonatório. É uma indigência mental. Uma inércia dos neurónios. Um desperdício só ao alcance do bicho homem. Um desleixo que os leitores, se os houvesse, não mereceriam.
Para reanimação, socorro-me de algumas fotografias recebidas de uma senhora professora que todos os dias, zelosamente, envia emails a todos os seus contactos. Trata-se uma prisão na Áustria. Para infelicidade dos utentes destes estabelecimentos, a prisão destina-se apenas aos criminosos condenados pelos tribunais austríacos, pois os burocratas de Bruxelas ainda se não lembraram de produzir directiva que permita ao preso escolher a prisão. Para os portugueses, que convivemos com tribunais caracóis e prisões sobrelotadas, é muito de lamentar a europeia multiplicidade de sistemas judiciais e a disparidade das suas condições materiais.

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sexta-feira, 11 de Abril de 2008

Parabéns

Este blogue não é invejoso. Não se agasta com o sucesso alheio. Por isso, não se pode deixar de dar os parabéns a um português que conseguiu um feito extraordinário, que merecia ampla divulgação internacional.
O português é o senhor Jorge Coelho, que durante muito anos participou num programa radiofónico, aceitando com simpatia a superioridade dos seus colegas de programa, os senhores Pacheco Pereira e Lobo Xavier, e reproduzindo com fidelidade canina e verbo monótono, a cartilha do patrão PS. O senhor Coelho conseguira a fama nacional por ser o ministro das Obras Públicas e Comunicações quando se deu a derrocada da ponte de Entre-os-Rios, a maldita ponte construída no tempo dos reis liberais que provocou a morte de 60 pessoas. Por causa da maldita ponte, o senhor Coelho demitiu-se, assumindo, com coragem de Hércules, a responsabilidade política da tragédia. As pontes caem, mas os homens que as tutelam, (que as pontes não são livres, era o que faltava) os homens que dirigem serviços incumbidos de fiscalizar e reparar as pontes, não têm, obviamente, que responder em tribunal pela queda das pontes. A criminalização do desleixo e da incompetência dos nossos funcionários públicos e políticos seria uma actividade de consequências devastadoras, que mataria os juízes de trabalhos forçados e obrigaria à construção de dezenas de prisões. E nós, constrangidos contribuintes, pouco conscienciosos cidadãos, seríamos obrigados a ir às prisões tratar dos nossos assuntos com o Estado. Além do dinheiro, o Estado acabaria a pedir-nos tabaco, bolinhos e apoio psicológico.
A proeza do senhor Coelho é, pois, esta: sendo o ministro-construtor-e-conservador-de-pontes, a queda da ponte, em vez de o obrigar ao exílio, em vez de o calar envergonhado, em vez de o forçar a servir à mesa, promoveu-o de tal maneira, que acaba de ser nomeado presidente de uma importante empresa que se dedica à construção de pontes, uma empresa que tem no Estado o seu principal cliente, e que grata, sem saber o que fazer a tanto lucro, costuma financiar as despesas eleitorais dos partidos que mandam no Estado. Talvez o dinheiro e as adjudicações feitas ajudem a explicar a proeza; porque à luz da simples lógica, se não quisermos invocar a antiquada ética, o facto é espantoso. É como se os israelitas agora elegessem para presidente da república um nazi, ou os vegetarianos desatassem a comer carne de porco ao pequeno-almoço.

sexta-feira, 28 de Março de 2008

Gent





Gent quase dispensa apresentações. Gent é o coração da Flandres que recuperou do inferno das trincheiras de 1914-1918. Gent é a burguesia pujante e de bom gosto, que enriquecia com têxteis, tapeçarias e transportes. E que celebrava o seu sucesso construindo igrejas que impressionam pelos naves amplas, pelos campanários que se elevam aos céus, pelos vitrais garridos que evocam a Bíblia. Gent é a cidade gótica que não esquece a punição infligida pelo seu filho Carlos V aos mercadores que ousaram contestar e defraudar o voraz fisco do império espanhol: ainda hoje os homens saem em procissão, descalços, vestindo uma túnica branca, com uma corda à volta do pescoço.

segunda-feira, 24 de Março de 2008

Lille






Da gelada Lille, cidade de 200.000 habitantes, que viu nascer o gigante Charles de Gaulle, que foi bombardeada e ocupada pelos alemães durante a I Guerra, un peu de la grandeur de la France.
De cima para baixo, le Palais des Beaux Artes, Jeanne d´Arc, l´église Saint-Maurice, l´empereur Napoleéon et la Vieille Bourse.

domingo, 23 de Março de 2008

Brugge






Brugge, Bruges, Brugge!

segunda-feira, 10 de Março de 2008

Ainda não chegaram lá

Os professores estão saturados e decidiram manifestá-lo publicamente, enchendo a Praça do Comércio. Pediram a demissão da ministra, denunciaram o sistema de avaliação que está a ser implantado, lembraram a sua degradação profissional. Entende-se a revolta, que me inspira simpatia e interesse. Sem ensino seríamos ainda piores animais; no ensino, resignadas ou angustiadas, esbanjando-se, estão pessoas que estimo e admiro. A manifestação será lembrada pela adesão massiva, mas não apressou a mudança que um dia chegará. Dos 140.000 professores vinculados ao Ministério, não têm visibilidade aqueles, poucos, que defendem o fim da função educativa do Estado. O que se estranha porque o truísmo é simples: como gere o ensino reiteradamente mal, o Estado, por decoro, por respeito pelo presente, por apreço pela eficiência, por preocupação pelo futuro, deve abdicar de ser agente educativo. Da reforma da instrução primária de Rodrigo da Fonseca em 1835, que ambicionava, na sua piedosa teoria, "fundar a cidadania" e promover a "civilização geral dos portugueses" à acentuada aposta de Marcello Caetano, o Estado demorou cerca de 140 anos até concretizar o seu propósito de levar à escola todas as crianças de 6 anos.
Que o Estado não tome a iniciativa de entregar a quem sabe o ensino, entende-se, dada a coragem política e a ética da generalidade dos seus dirigentes máximos, e a tacanhez burocrática da 5 de Outubro. Que os professores teimem em querer ter tal patrão, não abona em favor da respectiva capacidade de análise e auto-estima. Mais forte que a vocação de ensinar, é a paixão do funcionário público pelo salário certo e pelo comodismo de um trabalho sem competição.

quarta-feira, 5 de Março de 2008

Esperança?

Foi hoje anunciada a criação de mais um partido político - o MEP, Movimento Esperança Portugal. Ao contrário da extinção do PS, da ilegalização do PCP, do desaparecimento do PSD, que são sonhos bonitos de se ter, que seriam actos de justiça que me alegrariam juvenilmente, a notícia de mais um concorrente eleitoral só me não é completamente indiferente porque escrevo sobre ela, tocado, talvez, pela infeliz pieguice do nome: combinar "Esperança" e "Portugal" é uma contradição de gosto duvidoso, uma insensibilidade histórica, um optimismo deslocado, uma ingenuidade que faz desconfiar. "Esperança" e "Portugal" não combinam e ponto final. Cada povo tem a sua cruz colectiva e a cruz dos portugueses é Portugal.

domingo, 2 de Março de 2008

Sábia frugalidade

A aproximação da ditosa Primavera convida a uma frase do Desassossego que, pasme-se, não desola. Cativa e instrui.

"Concentrei e limitei os meus desejos, para os poder requintar melhor."

terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

Feliz ignorância

Pessoa, às vezes, incomodava-se com os outros, "que não são para nós mais que paisagem". Com malícia, talvez com secreta inveja, o ajudante de guarda-livros Bernardo Soares escreveu:

"Irrita-me a felicidade de todos estes homens que não sabem que são infelizes."

sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

Ai uma asneira

Um dos muitos defeitos deste blogue é a inexistência de asneiras. Sonoras e oportunas; divertidas ou indignadas. Para começar a atenuar tal falha, sirvo-me de Flaubert, que, confesso a vergonha, ainda não li. Flaubert teve um acesso de compreensível revolta e fixou:

"Eu estou a morrer, mas aquela puta da Madame Bovary viverá para sempre".

quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

Língua

Hoje é o dia da língua materna. Lamentavelmente, continua a ser verdade que "a maioria da gente enferma de não saber dizer o que vê e o que pensa". A educação é a "paixão" de todos os governos, e os portugueses, contagiados pela inépcia estatal, teimam em não se apaixonar pela sua língua, esmerando-se em maltratá-la. Só uma minoria sente que a "minha pátria é a língua portuguesa".

segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008

Birrinha aquática

Ontem e hoje, o céu cinzento, zangado, deprimente, fez cair muita água. Choveu e choveu e choveu. Se as casas mais acolhedoras com tanta chuva, as ruas acusaram os aguaceiros. Houve ruas e lojas inundadas; demoras e muitos toques nas estradas; prejuízos materiais e pessoas assustadas. E houve também declarações públicas. O ministro do Ambiente, aborrecido por ninguém o conhecer, e a quem faço a gentileza de dizer que se chama Nunes Correia, irritado por talvez ter os sapatos encharcados, tratou de sacudir a água do seu capote, responsabilizando os munícipios, acusando-os de não procederem à elementar limpeza das sarjetas. Os munícípios, claro está, não gostaram, reagiram, tendo o "chocado" presidente da ANMP, Fernando Ruas, também presidente da Câmara de Viseu e viciado em rotundas, lembrado competir ao governo a "limpeza das linhas de água". A nenhum deles ocorreu que o País tem um problema de ordenamento do território e que estas inundações são uma das suas inevitáveis consequências; a nenhum deles ocorreu assumir responsabilidades pessoais. São adultos, desempenham cargos públicos, e permitem-se ostentar alarve inocência. Quase apetece afogá-los.

terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

Politiqueiros

É significativo que não exista um código deontológico para os políticos. Mentem e asneiram impunemente, gozando de uma inimputabilidade só tolerável a pessoas com deficiências mentais.

Abuelos

Hoje, já te lembraste da tua avó materna, já falaste com o teu avô paterno?

domingo, 10 de Fevereiro de 2008

A ciência (des)moralizante


Para aqueles que têm a ciência em muito boa conta, segue-se um exemplo de disparatada ciência. Como são humanos, os cientistas, felizmente, também se enganam. Interpretam erradamente, ignoram, confundem, deliram. E passadas muitas décadas, divertem-nos.
«É principalmente sobre o sistema nervoso e orgãos dos sentidos que o onanismo exerce efeitos nocivos muito notáveis.(...)observou que o cérebro nos onanistas era extremamente mole e de pouca consistência.(...)As pessoas que abusam de si mesmas experimentam frequentemente(...)um enfraquecimento muito notável das faculdades intelectuais;(...)ficam embaraçados, perturbados, quando se encontram diante de alguém, fogem da sociedade, procuram a solidão, são tristes, inquietos, tímidos, atormentados pela melancolia e pelo desespero, caem em completa apatia. Muitas vezes vêm pôr termo a estes males ou a mais completa mania, ou o suicídio.»

sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

Pessoa I

Pessoa íntimo e universalizante, por todos compreendido e comungado:

"Uma como que lembrança da minha morte futura arrepia-me de dentro."

terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008

Vieira


O "imperador da língua portuguesa" nasceu a 6 de Fevereiro de 1608. Deste homem prodigioso, que defendeu os cristãos-novos e teve a coragem de denunciar os prejuízos da Inquisição; que missionou os índios com proveito e denunciou as violências dos colonos; deste poliglota que acreditava na utopia da paz universal inspirada por Cristo - aqui se deixa um pedaço do sermão aos peixes:
Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da terra, porque quer que façam na terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal!

quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

D. Carlos


Se lhe faltassem talentos, se desprezasse Portugal, não o teriam assassinado. D. Carlos, o rei que pintava, que caçava, que estudava o mar, que criava gado, e que era obrigado pela Constituição a trabalhar com políticos que o atacavam e denegriam porque "competiam ferozmente pela ascendência dentro da elite política". Com D. Carlos morreu mais que uma tentativa de regeneração do sistema. Morreu o liberalismo em Portugal. Até hoje.

sábado, 26 de Janeiro de 2008

Um sábado

Como gastar a tarde de um sábado? Segue-se uma abreviada e miserável descrição: evitar a companhia feminina; acordar quando se devia já ter almoçado; ser arrastado para a rua por um cão frenético; comer mecanicamente para pacificar o estômago sobras do jantar; fumar sucessivos cigarros porque os lábios inquietos e porque os cigarros um entretenimento; submeter-me às exigências da higiene e do temperamento e lutar contra o pó que parece removido mas logo se acumulará triunfante; engolir uma aspirina para cessar a enxaqueca que não massacra mas complica o alinhavar fácil de informação aos clientes que se fingem interessados; nenhum pensamento digno desse nome; apenas este texto indiscreto e que não merecia leitura.

Força Marinho

"Existe em Portugal uma criminalidade muito importante, do mais nocivo para o Estado e para a sociedade, e que andam por aí impunemente alguns a exibir os benefícios e os lucros dessa criminalidade e não há mecanismos de lhes tocar. Alguns até ostensivamente ocupam cargos relevantes no Estado Português", afirmou Marinho Pinto, bastonário dos advogados, à Antena 1.
Seria agora muito conveniente e estimulante que o senhor bastonário fornecesse indícios, facultasse provas, revelasse nomes. Que a nossa classe política é incompetente, e que enriquece graças aos privilégios, favores e negócios da coutada estatal que para si reservou, já nós há muito o sabemos.

segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008

Don´t forget

Ao blogue de Jaime Nogueira Pinto, e outros, como o muito legível Marques Bessa, fui buscar uma frase judiciosa, de muito duradoura validade:
"A Government big enough to give you everything you want, is a Government big enough to take from you everything you have!"

Gerald Ford (1913-2006)

O blogue é http://ofuturopresente.blogspot.com, pouco recomendado a esquerdistas moralizantes, sem humor e memória.

Era uma fábrica

Era uma fábrica que produzia munições, explosivos e granadas, que era gerida por coronéis obrigados ao lucro, e que dava trabalho a centenas de operários. Com o fim da guerra do Ultramar, a fábrica acumulou prejuízos, tornou-se desnecessária e foi extinta. Hoje, enquanto aguarda a decisão sobre mais um projecto imobiliário de luxo, alberga uma livraria com várias salas que têm o nome de filósofos, onde podemos beber licor de uísque e folhear Nietzsche, apalpar R. Aron e escolher o Desassossego. Na livraria há ainda D. Bowie quando jovem em ecrã gigante, há descarados quadros que nos lembram as consolações do sexo, há pianos que se tocam, há corredores propícios aos beijos, aos cigarros e à palheta, há um vaivém de gente que convive animada. A livraria convida a estar e merece a publicidade. Gratuita, que eu, desgraçadamente, não sei ganhar dinheiro e gosto de gostar de sítios.
Para mais informações, ver : http://www.bracodeprata.org/

terça-feira, 15 de Janeiro de 2008

C.

Uma pessoa com notáveis qualidades, que às vezes se sente "estupidamente triste", lembrou-se de me prendar e envaidecer com um poderoso poema que não mereço. O poema sim, merece partilha e atenção.

Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo
pelo túnel de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade
não mereces esta roda de náusea
em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira da cidade
onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Alexandre O'Neill

O pintas

Acabo de ler na gloriosa Internet uma pérola, proferida pelo juiz desembargador Alexandre Coelho, a propósito do conteúdo de uma entrevista dada por um espanhol preso preventivamente em Monsanto. Interrogado pelo DN sobre as afirmações do detido - que apelidou a prisão de Monsanto como a "Guantanamo de Portugal" - o juiz, com o primário patriotismo ferido, entende que um "detido, nacional ou estrangeiro, não será a melhor voz para avaliar um sistema em que o próprio está inserido". Para este juiz que parece desprezar o empirismo alheio , eu e a leitora, por exemplo, que nunca visitámos uma prisão, que nunca estivemos presos, seremos, porque pessoalmente desconhecedores da realidade prisional, melhores vozes para avaliar uma prisão.
Para este juiz, dotado de uma lógica que posso com intencional exagero apelidar de miserável, "um detido ou um recluso não deveria proferir declarações de avaliação" porque "não é isento", porque "a sua credibilidade está obviamente afectada". Ele, pelos vistos, que integra o topo do sistema, pode fazer declarações, e nós só podemos concluir que também ele não é isento nem credível, embora se tenha em muito boa conta. O mundo premeia gente assim.

domingo, 9 de Dezembro de 2007

Europa-África

Lisboa esteve cheia de ditadores de impecável currículo: vitalícios, milionários de tanta corrupção, que se esmeram a encher as prisões e os cemitérios de oposicionistas, que patrocinam terroristas, que expropriam proprietários, que consentem que milhões de pessoas morram de fome e de doenças facilmente tratáveis.
Graças a estes governantes e respectivas clientelas, África é a suprema vergonha e a diária tragédia da humanidade. A impunidade de que gozam, em casa e pelo mundo, não os corrige: ouvem propostas de investimento estrangeiro, seduzem lembrando as matérias-primas existentes, aturam sorridentes a evocação dos direitos humanos que os líderes europeus nunca se cansam de repetir, e massacram e roubam sempre que o julgam necessário ou apetecível. Percebe-se a tranquilidade dos monstros: a Europa, que pela boca de Sócrates os considerou "parceiros iguais", não assusta. A Europa cala-se. Deplora as corriqueiras "catástrofes humanitárias" mas não ousa acusar quem merece ser julgado em Haia. A Europa, que teima em não saber lidar com o seu passado recente, parece recear que os líderes africanos peçam milionárias indemnizações pelo passado colonial: malditos brancos, paguem-nos as estradas, as pontes, os caminhos-de-ferro, os portos, os hospitais, as escolas, as fábricas, que construíram e que nós destruímos. Na relação Europa-África, o absurdo é permanente.

quinta-feira, 29 de Novembro de 2007

Guerra ao invasor I


A gravura retrata o famoso embarque da família real. A 29 de Novembro de 1807, escoltada pela marinha britânica, a corte transferia-se para o Brasil. Quando entraram em Lisboa, os andrajosos franceses, comandados por Junot, encontraram uma cidade amedrontada e instruída para colaborar. As elites incensaram o invasor na esperança de conservarem o estatuto e os bens: bispos e aristocratas até foram a Baiona cumprimentar Napoleão e fingir que representavam uma nação satisfeita com a dominação francesa. Os nossos afrancesados pediam a legislação do Império, mas a feroz e corajosa resistência popular, inspirada pelo clero ou pelo despeito social, e a superioridade táctica das tropas britânicas, ensinariam aos franceses o inferno da guerra peninsular.

terça-feira, 20 de Novembro de 2007

Uma explicação

Ai quase um mês sem escrever uma linha no blogue. Que vergonha, que desperdício! Tanta gente ainda analfabeta por esse mundo fora e eu preguiçoso, a desapontar as minhas imaginadas leitoras. Mas, porque não sou insensível aos apelos e queixumes da Ana A., venho explicar a razão do silêncio que agora quebro. Ele foi motivado por uma notícia que li na Internet e que me assustou ao ponto de paralisar o verbo: em Itália, o governo socialista do senhor Prodi parece ter a intenção de taxar os blogues. Como em Portugal o governo também é do Partido Socialista, e como é sabido que os nossos socialistas adoram imitar os camaradas estrangeiros, e não resistem a criar ou a aumentar impostos, eu receei que alguém no Ministério das Finanças estivesse já a preparar mais uma tortuosa maneira de o Estado me vir ao bolso. Como ainda nada transpirou dos gabinetes para os jornais, como parece que ainda não vão lançar esse putativo imposto, retomo a brilhante actividade do blogue. Aliviado e muito confidente.

domingo, 28 de Outubro de 2007

Adeus faltas

Está a ser cozinhado o novo Estatuto do Aluno. Tem como novidade o fim das reprovações por excessos de faltas. Justificadas ou injustificadas, as faltas apenas terão como consequência a realização de "provas de recuperação". Teoricamente, isto alivia as turmas da indisciplina dos selvagens que não querem aprender e poupa os nervos dos professores. Na prática, declara a superfluidade do professor e, como diz VPV, "proclama oficialmente que o ensino é inútil". Não me indigna que os burocratas do Ministério e os membros do Governo favoreçam os ineptos, humilhem os professores e prejudiquem o País. Há muito tempo que o fazem, sem qualquer remorso. O que me indigna, o que é odioso e criminoso, é que este programa de ignorância e irresponsabilidade, custe, de acordo com a proposta do Orçamento de Estado de 2008, 4.897.968.141 euros. Sim, quase cinco mil milhões de euros para gastar com as escolas do ensino básico e secundário, onde cada vez mais se ensina e se aprende menos.

domingo, 21 de Outubro de 2007

Their finest hour


Magnífico painel escultórico em homenagem aos homens da Royal Air Force que enfrentaram os aviões da Luftwaffe durante o segundo semestre de 1940. Hitler esperava que os sucessos da avassaladora Blitzkrieg convencessem o governo de Londres a uma paz que consagrasse a hegemonia alemã no continente europeu. A França, dividida e desmoralizada, rendera-se quase sem lutar. O glorioso Império Britânico não passaria pela mesma ignomínia. Resistiria e lutaria até à vitória ou à exaustão das suas capacidades. A RAF não impediu bombardeamentos de cidades industriais e de instalações militares. Não impediu o bombardeamento nocturno de Londres durante os meses de Setembro e Outubro. Mas infligiu tais perdas aos alemães, que inviabilizou a programada invasão da ilha e, mais importante, fez acreditar os britânicos na vitória. Brave british people.

Pai

Não tenho traumas provocados pela educação dos meus pais: não me espancaram, não me arruínaram psicologicamente, não me obrigaram a recorrer às mentiras comuns da adolescência. Isto não significa que a minha educação caseira tenha sido isenta de erros. E se a minha mãe se esmerou até ao excesso de saber que jamais encontrarei outra mulher que me trate tão maravilhosamente como ela, o meu pai pecou por omissões que parecem irrecuperáveis: não me ensinou a jogar a xadrez e a conduzir, nunca me disse uma palavra sobre a arte de seduzir meninas, não me obrigou a estudar Direito. Quando se empenhou, escolheu-me o clube errado. Fez-me sportinguista e o Sporting é o clube que mais gosta de desperdiçar vitórias em Portugal. Ao inculcar-me o amor ao Sporting, fez-me íntimo dos desgostos, do derrotismo, da incompetência. Se tiver filhos, serão, obviamente, adeptos do F.C.Porto. Terei o prazer de os ver alegres e confiantes, e não me acusarão de lhes prejudicar os fins de semana.

sábado, 20 de Outubro de 2007

Contraste


Londres talvez seja a cidade mais multiracial da Europa, estando deliciosamente cheia de japonesas. Vaidosas, elegantes e ocidentalizadas. Eis uma delas.

terça-feira, 16 de Outubro de 2007

Angola foi nossa

Foi hoje exibido o 1º episódio do documentário de Joaquim Furtado sobre a guerra do Ultramar. Falaram antigos guerrilheiros da UPA, orgulhosos de terem participado na bárbara chacina de cerca de 6.000 pessoas em Março de 1961; falaram antigos militares que enterraram os mortos e reocuparam territórios devastados ou desertos; mostraram-se as imagens do sofrimento das mulheres que escaparam aos massacres, e as imagens dos corajosos que decidiram defender as suas casas e negócios; viram-se excitadas manifestações em Luanda e Lisboa, em defesa da unidade ameçada; provou-se a insufieciente defesa militar de Angola, que facilitou as matanças, evocou-se o começo da luta diplomática na ONU. Faltou informação sobre a situação económica e social de Angola, mas a narração poupou-nos ao facciosimo e tentou a imparcialidade.
Estranhamente, omitiu-se a resposta de Salazar à urgência. Que foi a que qualquer outra pessoa responsável teria tomado. Vai dar-se a palavra ao Presidente do Conselho, em carta de 3 de Outubro de 1962, dirigida ao comandante-chefe interino de Angola, general Holbeche Fino.
"Tomei conhecimento do telegrama de V. Ex.ª e procurarei dar sucinto esclarecimento da situação.
Por intermédio do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas fiz chegar a V. Ex.ª a expressão do meu empenho para que não deixasse a encarregatura do governo, não só pela impressão que pudesse dar de precaridade da autoridade da província como porque, não devendo demorar mais que um ou dois dias a escolha do novo governador, seria inconveniente qualquer alteração havida aí.
Nestes termos, concordo que o Encarregado do Governo não deve dar andamento a novos diplomas durante a sua interinidade muito curta mas apenas entregar os seus maiores cuidados à manutenção da ordem pública o que é essencial neste momento, além de algum despacho urgente.
Para se compreender bem a situação é preciso ter presente que nunca esteve em causa a falta de confiança do governo no General Deslandes, mas apenas desentendimentos graves entre o Governador e o Ministro, sobretudo quanto a actos de administração, desentendimentos que tornaram impossível a colaboração e o trabalho futuro útil.
Pelo que respeita ao comando-chefe, nada houve que mereça objectar. Auxiliado por comandos das diversas Armas e unidade moral que conseguiu criar nas tropas cujo entusiasmo e dedicação patriótica pôde aproveitar a bem da causa nacional, o General Deslandes foi merecedor do apreço geral. Por isso, ao exonerá-lo do comando-chefe (visto a sua exoneração de governador-geral), pude com satisfação e justiça assinar portaria de significativo louvor e propor ao Chefe de Estado condecoração condigna.
Quanto porém à administração, sobretudo devido à falta de experiência dos colaboradores imediatos, a situação criada não podia continuar e tem de sofrer modificações sérias.
Criou-se na província ambiente de euforia quanto à possibilidade de obter financiamentos externos avultados e quanto à possibilidade da execução de grandiosos melhoramentos cuja rentabilidade económica está longe de se encontrar averiguada.
Lançaram-se na opinião sugestões e planos que facilmente aqueciam imaginações, deste modo presas a miragens de impossível realização imediata. A consequente decepção de não se conseguirem os meios financeiros ou de não se executarem largos planos apresentados havia de criar clima político inconveniente, senão perigoso. Devia pôr-se ponto em tal encadeamento de sucessos para se operar um desvio, tanto mais necessário, que ao mesmo tempo se notavam na administração tendência socializantes contrárias aos princípios constitucionais.
É evidente que as oposições deviam apoiar essa orientação por ser previsível não nos podermos desembaraçar das dificuldades criadas.
Relativamente à política ultramarina e processamento de eventuais modificações nada há, segundo creio, que explique a sensação de perplexidade no seio das populações, se dedicadas à nação portuguesa.
A convocação dos membros eleitos dos Conselhos Legislativos para serem ouvidos sobre algumas alterações da Lei Orgânica do Ultramar não tem significado especial, pois que as aludidas alterações dizem apenas respeito a três pontos:
a) possível aumento dos membros eleitos;
b) definição de pelouros a atribuir aos secretários provinciais;
c) eventual criação de um órgão consultivo (o Ministro tem-lhe chamado Câmara de reflexão), a ouvir antes de o Conselho Legislativo se pronunciar sobre os diplomas.

Noto porém que a convocação algum tanto espectacular dos tais vogais eleitos para Lisboa começou a despertar nalguns (até aqui e com preocupação) a ideia de uma convocação de “Estados Gerais da Nação” para definirem o futuro estatuto político desta.
Como digo acima, nada disto está em causa, mas chegam notícias de ideia extravagantes e pretensões insólitas - os vogais eleitos desejariam ter direito de voto; as associações de naturais pretenderiam ser convocadas também; as associações económicas que penso estarem hoje em mãos oposicionistas entenderiam também ser ouvidas.
Este movimento reputo-o perigoso se não conseguirmos canalizá-lo e reduzi-lo ao razoável porque a tendência seria levar os problemas até soluções extremas inaceitáveis.
Penso que o General Deslandes não terá feito nada que justifique a ideia de estar-se a caminho da mudança da nossa política. Como várias vezes tenho afirmado, a autonomia administrativa pode ser maior ou menor segundo a capacidade das elites provinciais.
Essencial é apenas “solidez de laços políticos” que unam os vários territórios da Nação. Só por esta nos sacrificamos e o Exército aí se bate e está a postos noutras partes.
Vejo com estranheza a mágoa que alguns daí, cujas vidas e interesses a força armada salvou, têm a ideia de entendimentos com o inimigo para salvar de futuro umas e outras.
Pensam alguns que ANGOLA pode ser um Estado branco independente e outros que por acordos irrelevantes poderiam constituir um Estado misto ou multirracial.
É preciso ter bem presente que no estado actual da política do mundo em África só são admissíveis Estados independentes de raiz inteiramente negra ou então territórios em que a soberania é de raiz europeia. Por esta solução temos lutado e é revoltante que se pense aí haver outras possibilidades.
Em conclusão:
a) relativamente à parte militar, há que continuar o trabalho do General Deslandes, mantendo as forças na mais intensa actividade contra os terroristas e na defesa das populações de qualquer cor;
b) quanto à administração, há alterações profundas a introduzir, tanto na orientação geral como na acção administrativa;
c) quanto à política ultramarina, não há razão para se alterar - continuaremos a defender uma ANGOLA portuguesa ou mais claramente uma ANGOLA parte integrante de Portugal.

Será muito difícil convencer as pessoas responsáveis de que não só não têm outra opção mas que Portugal não pode sacrificar-se por solução diferente?
Com respeitosos cumprimentos
O Ministro da Defesa Nacional"

London beauty

Uma senhora que parece uma menina, serenamente sentada no buliçoso mercado de Portobello Road.

domingo, 14 de Outubro de 2007

Eu sabia

Eu sabia que estava cheio de razão quando há dois anos fechei a conta no BCP e depositei as parcas poupanças no Montepio. Banco careiro, com funcionários impossíveis de empatizar que acumulam horas extraordinárias e fazem telefonemas agrestes a clientes por ninharias, com gestores que auferem ordenados obscenos, com uma publicidade massacrante, não merecia os meus tostões. Hoje, fiquei a saber que é uma instituição com duvidoso sentido de humor, que divulga publicamente anedotas susceptíveis de ofender muitos clientes. Os jornais semanários noticiaram o perdão de uma vultuosa dívida a uma empresa de que era accionista o filho de Jardim Gonçalves. Entre 12 a 15 milhões de euros. Para o BCP, e aqui se chega à anedota, o "processo de anulação das dívidas seguiu o procedimento idêntico ao de qualquer outra empresa cliente do banco que entra em situação de dificuldade financeira”. O BCP empresta dinheiro, as empresas entram em falência, e o BCP, filantrópico, generoso, compreensivo, cristão, qual hipoteca, qual tribunal, perdoa as dívidas e oferece um jantar. Primeiro, ri-se. Depois, muda-se de banco.

sexta-feira, 12 de Outubro de 2007

David Bowie - Ashes to ashes

O bom inglês

Absolute Beginners - David Bowie

quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

Societa Iesu

A 27 de Setembro de 1540 o Papa Paulo III aprovava, finalmente, a Companhia de Jesus, idealizada e criada pelo basco Inácio de Loyola. Inácio conhecia as durezas da guerra, peregrinara na Terra Santa, aprendera na Universidade da Salamanca, e vivia em Paris, quando em 1534, com mais sete companheiros, pronunciou os habituais votos de pobreza e castidade. A estes juntaram a obediência total ao Papa. Inácio sabia que Roma não era flor que se cheirasse: o Papado viva no luxo, na luxúria, no nepotismo, na rivalidade política entre as grandes famílias da fragmentada Itália, incapaz de travar a implantação do protestantismo por vastas regiões da Europa.
Se no mercado religioso europeu havia um concorrente de respeito, nas Américas, na África e na Ásia, abundavam os gentios que desconheciam o Evangelho. Dar-lhes a conhecer Cristo era o grande objectivo dos jesuítas. Era a oportunidade de redenção e de expansão da fé. Imbuídos de curiosidade e respeito pelas culturas autóctones, dotados de sólida formação teológica e de coragem física, os jesuítas partiram à evangelização do mundo: em 1542 estavam em Goa, em 1549 no Brasil e no Japão, em 1560 em Angola e Moçambique, em 1565 em Macau, em 1583 na China, em 1624 no Tibete. Não eram muitos, mas eram bons. Ensinavam o catecismo, criaram e geriram dezenas de colégios do ensino secundário, visitavam presos e doentes, conheceram o martírio. Sem a acção missionária dos jesuítas o Catolicismo não seria hoje, presumivelmente, uma religião mundial. Não é assim, Filipa?

PSL

Pedro Santana Lopes esteve ontem impecável na SIC-Notícias. Ofendido pela interrupção da sua entrevista por mais uma vácua reportagem em directo, questionou a jornalista sobre a estupidez do acto e acabou com a entrevista. Não pactou com a amoralidade, o sensacionalismo e a falta de educação. Deu uma lição. Dignificou-se.

segunda-feira, 17 de Setembro de 2007

O engenheiro na Casa Branca

O Primeiro-Ministro esteve na Casa Branca, a conversar com o Presidente Bush. Uma das fotografias da praxe informou-nos cabalmente: Sócrates estava orgulhoso de ali estar a viver a sua consagração internacional. Bush percebeu a alegria do visitante e teve a bondade, ou a ironia, de agradecer o apoio de Portugal às intervenções americanas no Iraque e no Afeganistão. E Sócrates teve o bom senso de não arruinar o ambiente, não interrompendo Bush para lhe contar como em 2003 criticara, com aspereza e populismo demagógico, a concordância do Governo de Barroso com a invasão do Iraque.
Como o Estado português desperdiça todos os anos, em despesas supérfluas, centenas de milhões de euros que depois muita falta fazem, a nossa efectiva contribuição reduziu-se a pouco mais de 100 homens da GNR no Iraque e a acerca de 150 militares do Exército do Afeganistão. Ninguém pode acusar Portugal de esconder ou dissimular a sua insignificância internacional.

Dalai Lama

O Dalai-Lama, líder espiritual do povo tibetano, esteve em Portugal. Distribuiu sorrisos de simpatia, pregou a serenidade interior, o altruísmo e o desprendimento material em conferências, reclamou autonomia para o seu Tibete ocupado pela China, confraternizou com autoridades religiosas, exercitou a paciência na visita à Assembleia da República. O Governo, por "razões óbvias" não teve a delicadeza de convidar o Dalai-Lama para um ameno chá. Para alguns jornalistas muito mais opinativos que este blogue, as razões eram o respeitinho subserviente às autoridades de Pequim, a preferência em agradar à China, em detrimento do apreço a um prémio nobel da Paz e da imperativa valorização dos direitos humanos. Os jornalistas julgaram que o raciocínio do ministro Luís Amado tinha sido mais ou menos este: recebemos o homem e os chineses pedem acrimoniosas explicações, desistem daquele rentável acordo comercial que demorámos meses a negociar, e, para cúmulo, esquecem-se de nos convidar para a abertura dos jogos olímpicos.
Isto é lógico, mas também me parece superficial. Para mim, o ministro Amado não recebeu o Dalai-Lama, sobretudo, por uma de duas razões: ou porque quis evitar, na sua intimidade, o incómodo de sentir uma inferioridade moral que o deprimiria; ou porque entendeu que a espiritualidade do tibetano poderia prejudicar aquele cínico estado de espírito, tão necessário ao exercício das funções diplomáticas.

quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

Nestum


Fidelidade, é comer nestum há mais de 25 anos. Mãe, mima-me com o teu nestum de mel.

quarta-feira, 5 de Setembro de 2007

Comprem a revistinha


Já saiu o número de Setembro da melhor revista que se faz em Portugal. Votantes, simpatizantes e desiludidos do PSD não a devem perder.

Botto

O que desejei às vezes, poema de António Botto:

O que desejei às vezes
Diante do teu olhar,
Diante da tua boca!
Quase que choro de pena
Medindo aquela ansiedade
Pela de hoje - que é tão pouca!
Tão pouca que nem existe!
De tudo quanto nós fomos,
Apenas sei que sou triste.

terça-feira, 4 de Setembro de 2007

Cardeal Patriarca

Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, que sinceramente aprecio: acabo de passear os olhos pela História Religiosa de Portugal, obra de muita erudição que aqui recomendo a crentes e descrentes, e fiquei entristecido com a prática religiosa dos habitantes do sul de Portugal: eu já a sabia diminuta, mas não a supunha tão minoritária, mesmo marginal. Em 1991, nas dioceses de Beja, Évora, Setúbal e Algarve, a percentagem de católicos que assistiu à missa oscilou entre os 5% e os 9%. É uma participação que não pode deixar a Igreja Católica satisfeita e que levanta suspeitas sobre a saúde espiritual daquelas populações. É urgente, senhor Cardeal Patriarca, apostar numa dinâmica acção pastoral, numa intensa missionação, que faça regressar as gentes do Alentejo e Algarve às igrejas, agora vazias ou fechadas, que são locais privilegiados para se saborear um gelado em paz.

Where The Wild Roses Grow

Não há melancolia musical como a de Nick Cave.

Concorda, senhora professora?

Ignoro as minudências burocráticas relativas à colocação anual dos professores. Sei que muitos daqueles que são colocados em escolas longe de casa mergulham na frustração, no abatimento ou na revolta. Queriam estar junto dos seus e sentem-se desterrados na província que os desola. Prejudicados nos seus interesses, não é arriscado imaginar que ensinem menos bem: a tristeza só melhora a comunicação dos poetas.
Mas, se quisermos ser optimistas, parece que se avizinham mudanças que beneficiarão alunos e professores, e que deixarão de escandalizar os contribuintes.
O Estatuto da Carreira Docente quer tornar a "entrada na profissão docente e progressão na carreira mais exigente e selectiva". Para a leitora desejosa de ensinar ter possibilidades de ser admitida já não basta a licenciatura e a paciência para as papeladas da candidatura: será necessária a aprovação num exame nacional. Para a leitora que durante os últimos anos tem desesperado com os demenciais programas saídos da 5 de Outubro, a avaliação vai contar a valer na progressão da carreira: se tiver um humilhante insuficiente, será despromovida para o quadro de mobilidade.
Isto impunha-se. Quem paga deve avaliar e deve exigir competência. Apenas os que receiam ser avaliados poderão discordar. Porém, estas evidências têm um inconveniente que produziu incalculáveis danos: pecam por tardias. Só depois da casa arrombada, só depois da consentida invasão dos bárbaros que desprestigiaram a profissão, só mais de 20 anos depois do começo do negócio das universidades privadas que se esmeraram a licenciar milhares de ignorantes, é que o Ministério teve a iluminação de fazer da qualidade dos seus agentes uma prioridade.

segunda-feira, 3 de Setembro de 2007

Swedish Chef runs a fowl of the Muppet Kitchen

Para quem tem saudades dos Marretas!

domingo, 2 de Setembro de 2007

É isto um juiz?

Notícia fresquinha do admirável mundo da Justiça portuguesa. A edificante história envolve um autarca afortunado, um proprietário furioso e um juiz que parece não acreditar na utilidade da prisão. O proprietário disparou dois tiros contra o presidente da Câmara de Tarouca. Falhou a pontaria. O juiz do Tribunal da Régua decidiu aplicar ao agressor, como medida de coacção, em vez da prisão preventiva que qualquer leigo esperaria, o termo de identidade e residência, que qualquer leigo achará escandaloso. Ficámos a saber que quem tenta matar pode aguardar julgamento em liberdade.

sábado, 1 de Setembro de 2007

Madonna - Hung Up - Live VMA 2005

O blogue estava com falta de erotismo. Ai Madonna, fazes-me saltar.

HÁ UM CAMINHO Pt.3 - Os Vetos Presidênciais

Paulo Portas com a sua insuperável oratória no Youtube.

sexta-feira, 31 de Agosto de 2007

A mana

A minha irmã é uma menina com o coração na boca, dada a nervosismos precipitados Hoje, a mana indignou-se na via pública ao assistir à passagem de uma caravana de viaturas oficiais no infeliz Terreiro do Paço. A mana acha indecente que os membros do governo, criaturas que juraram publicamente respeitar e fazer observar as leis, participem e beneficiem dos atropelos ao código da estrada que polícias e seguranças cometem diarimente nas ruas de Lisboa e nas estradas de Portugal. A mana, que já tem o bom senso de não participar nas eleições, ainda não compreende que os membros do governo, coitados, tão mal pagos, tão assoberbados de despachos, reuniões e relatórios, tão criticados nos corredores departamentais e nos transportes públicos, tão expostos ao ridículo nos jornais, tão empequenecidos com os erros das suas decisões, tão conscientes das suas incapacidades, tenham ao menos a consolação de se deslocarem em Lisboa sem paragens nas passadeiras e nos sinais. Podem engavetar promessas, mas não podem chegar atrasados.

33

33 and counting. E a ciência continua a não descobrir a maneira de prolongar a juventude, de adiar o envelhecimento: uma imensa desgraça, apenas atenuada pela cara de menino, que me há-de valer, quando chegar aos 60, ouvir pessoas a darem-me 40 e não as desmentir.
Como de costume, para me poupar à humilhação das recusas e das ausências inesperadas, não reuni os amigos. O jantar da praxe com os meus pais e as sms da praxe das amigas com boa memória. Algumas excederam-se e cometeram a injustiça de me mimarem com prendinhas que adoro receber: para fazer inveja, e em jeito de agradecimento e homenagem, aqui vai o rol: a Ju fez-me chegar pelo correio a Bíblia, que se não me consolar, irá instruir-me; a Filipa ganhou o direito de me beijar o pescoço durante 3 minutos sempre que me vaporizar com o YSL; a Eva teve a ideia de mandar estampar numa t-shirt um dos seus poemas, explícito, erótico, impublicável, que ainda reforçou com um Armani que promete não deixar nariz algum indiferente; e a Ana, com faro de arqueóloga ou de detective, aumentou-me a livraria com a biografia do espantoso Jorge Jardim. Maravilhosas prendinhas!

sábado, 18 de Agosto de 2007

Madame de Stael

Madame de Stael (1766-1817) precisava de amor como de oxigénio. Acumulou amantes, que deslumbrava com a sua inteligência e independência, e que esgotava com as suas insaciáveis exigências sentimentais. Sensata gestora da herança do pai, apesar da generosidade para com os amigos e do luxo em que vivia; sensata defensora da monarquia constitucional, em época de ferozes convulsões; proibida de viver em Paris pelo megalómano Napoleão, altiva desdenhadora de convenções, hospitaleira com quem partilhava afinidades e gostos, escritora de sucesso, manteve durante anos tertúlias que fizeram fama em toda a Europa. O casamento não lhe transtornou a vida, porque entre Deus e o amor não reconheço nenhum mediador a não ser a minha consciência: o marido "não me fará infeliz, pela simples razão de que não pode contribuir para a minha felicidade".
A quem quiser saber mais sobre a vida desta ditosa senhora, recomendo a leitura do texto de Fátima Bonifácio, As vidas desencontradas do duque de Palmela e de Mme de Stael, compilado no livro Estudos de História Contemporânea de Portugal, ICS, 2007.

Crime em directo

Ontem, perto de Silves, cerca de 100 fanáticos que são um insulto à inteligência da espécie humana, entraram num terreno agrícola e destruíram uma plantação de milho transgénico. A GNR não foi capaz de correr com os invasores à bastonada, algumas estações de rádio fizeram aos criminosos o favor de lhes conceder tempo de antena, e os jornais chamam "activistas" a quem desrespeita a propriedade privada.

De Jerusalém

Preguiçava numa aldeia inundada de emigrantes que não sabem falar português, quando recebi de Jerusalém uma mensagem da Juliana a alegrar-me e consolar-me: "Já deixei o pedido no muro das lamentações.Vais ser abençoado, tenho a certeza!" Deus te ouça, estimada menina.

sábado, 11 de Agosto de 2007

Ferro

Um intelectual de acção, um jornalista que sabia escrever e pensar, um cosmopolita que criou uma propaganda séria, que não precisava de ofender e mentir, António Ferro, escreveu a Salazar a carta que se segue:
27-11-934
Exmo. Sr. Dr. Oliveira Salazar
Como V. Ex.ª tem estado ocupadíssimo com assuntos duma importância vital para os interesses da Nação e do Estado Novo, não tenho insistido para que V. Ex.ª me receba. A mais de quinze dias, porém, da minha chegada a Lisboa começo a sentir a necessidade moral, urgente, de lhe explicar o que fiz, ou tentei fazer, durante a minha recente viagem e de receber de V. Ex.ª aquelas indispensáveis directrizes para o andamento de certas questões cuja resolução se torna urgente.
A estas razões de ordem oficial ou burocrática, junta-se ainda - perdoe-me V. Ex.ª esta nota sentimental - o desejo de o ver, de lhe falar, depois duma longa ausência.
Aguardando as ordens de V. Ex.ª creia-me sempre seu amigo dedicado e seu incondicional servidor
António Ferro
ANTT/AOS/CP - 112, fls. 236/237

Ai Timor

Em Timor continuam as complicações políticas e continua adiada a paz: o antigo herói nacional Xanana Gusmão foi indigitado primeiro-ministro de um governo de coligação. A Fretilin, excluída do Poder, apesar de ter sido o partido mais votado nas recentes eleições, não aceita o governo "ilegal" e os seus apoiantes vieram para a rua protestar à velha maneira selvagem: queimaram casas, invadiram um orfanato e violaram crianças.
Timor não tem capacidade para ser independente, e só os militares e polícias em missão das Nações Unidas impedem nova guerra civil.

terça-feira, 7 de Agosto de 2007

Macário

Acabo de ler que Marques Mendes escolheu para porta-voz Macário Correia. Imagino o congresso do PSD: as pessoas a fingir que ouvem com atenção os discursos da praxe, a baterem palmas forçadas, a atirarem moeda ao ar para decidir o voto, a rezarem por uma aparição na TV e a suspirarem por um intervalo para os cigarros e para o descanso dos neurónios intoxicados de tanto palavreado, coitados. E os congressitas fumam, cavaqueiam, piadas e confidências, palpites e projectos, e de repente, rodeado de jornalistas de microfone em punho, o cruzado Macário, o presidente Macário que disse que beijar uma rapariga que fuma é como lamber um cinzeiro, o ecologista Macário que talvez tenha feito as duas coisas e agora talvez não faça nenhuma de tão ocupado com o partido e a câmara de Tavira, a declarar aos fabricantes de notícias que há-de ser o candidato a líder no congresso de 2069, ainda cheio de saúde porque não fuma e vai de bicicleta para a praia.

domingo, 5 de Agosto de 2007

Baratas

Eu sou quase inofensivo: evito pisar formigas, aborrece-me esmagar caracóis, recuso pescarias e caçadas, os cães derretem-se comigo, as vaquinhas encantam-me, e as meninas que se cansam de mim não me ouvem insultos. Mas as baratas são um caso especial. Os vermes usam-se em tratamentos médicos, mas as baratas são simplesmente imprestáveis e nojentas. Elimináveis. Por isso, conseguem despertar-me o impulso homicida. Eu a ser arrastado pelo meu intratável cão que nunca se recusa a ir à rua e as sacanas a passearem-se no passeio. Como um menino prevenido vale por dois, para evitar que me entrem em casa, me invadam o quarto, horrorizem mãe e visitas, peguei numa cana e esmaguei duas. Humano, demasiado humano: qualquer pessoa razoável, imune a fanatismos budistas, faria o mesmo, tanto mais que a moralizante Quercus nunca convocou os jornalistas para opinar sobre as baratas urbanas.

quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

18

Uma senhora professora acaba de me contar que hoje foi ao funeral de um aluno. Tinha 18 anos e adormeceu ao volante. Embora a irresponsabilidade e o sono inoportuno abundem em qualquer idade, dou por mim a pensar que a maioridade aos 18 é um favor aberrante, uma concessão prematura e desajustada à geração que corre.

terça-feira, 24 de Julho de 2007

Santuário


Este blogue é orgulhosamente heterossexual. E a beleza não ofende. Maravilha.

segunda-feira, 23 de Julho de 2007

Elefante


Ai o quanto gostaria de dar um passeio em cima de um elefante.

terça-feira, 17 de Julho de 2007

Tintin por Ramos

Rui Ramos - nunca é demais lembrá-lo, um dos melhores historiadores do mercado, pela erudição despretensiosa, pela análise inteligente, pela linguagem cativante, e cujos livros são obras-primas imperdíveis - diz sobre Tintin e sobre determinada escolha político-filosófica, o seguinte:
"Nos livros de Tintin, encontro a mistura mais acertada das três principais qualidades de um conservador liberal: a vontade de saber muito, a determinação de acreditar em muito pouco e a convicção de que nenhum ideal humanitário nos deve fazer esquecer as pessoas reais que estão à nossa volta. A mistura de curiosidade e cepticismo assegura-nos que a disponibilidade para nos deixarmos maravilhar não acabará na prostração dogmática, nem que a resistência às ortodoxias resultará em secura e cinismo."
"O que aprendi com Tintin", Revista Atlântico, n.º 28, Julho de 2007, p.19

sábado, 14 de Julho de 2007

Da BN digital


A Biblioteca Nacional digitaliza as suas colecções. É um trabalho interminável e muito útil: preservam-se os originais, faculta-se o acesso à distância, evita-se a antipatia dos funcionários pelo atendimento. O exemplar é um famoso mapa de propaganda do Estado Novo, da autoria do capitão Henrique Galvão, homem que antes de tomar de assalto o Santa Maria, esteve activíssimo na promoção do património colonial português que bem conhecia.

quarta-feira, 11 de Julho de 2007

D. Miguel


11 de Julho de 1828: D. Miguel é aclamado Rei de Portugal. Tinha a tradição e a legitimidade, faltou-lhe a vitória das armas.

terça-feira, 26 de Junho de 2007

Wilson-Salazar

Seguem-se as cartas trocadas em 1966 entre o Primeiro-Ministro do Reino Unido, Harod Wilson, e Oliveira Salazar. A Inglaterra tinha a sua Commonwealth abalada; Portugal defendia e desenvolvia os seus territórios ultramarinos. Por causa do bloqueio à Rodésia decretado pela ONU, as relações entre os dois países azedaram, e os tradicionais aliados admitiram envolver-se num conflito militar.
***
I am sending you this personal message in the hope that at this late hour it may still be possible for us to reach agreement in our mutual self-interest on the steps needed to prevent a deterioration in the present serious situation in Central Africa and in Anglo-Portuguese relations. I am very conscious of the longstanding friendship between our two countries and look forward to a continuance of a close relationship between Portugal and Britain in the future. In Africa we have a common interest in the maintenance of peace and stability and the development of responsible government.

2. I have noted your wise words yesterday about the danger that the Rhodesian situation might kindle a vast fire. This will indeed be the case if the illegal and rebellious regime there is not brought to an end soon.
I can not emphasise too strongly the deep passions which the illegal declaration of independence last November has aroused in African countries. If the illegal regime were to be allowed to get away with their act of rebellion the position of European communities all over Africa would be in serious jeopardy and chaos could develop which could only be of advantage to the Communist powers. You may have seen that large British community in Kenya was among the first to condemn Rhodesia´s illegal declaration of independence.

3. In Rhodesia itself our aim as I have publicly made clear, is to bring about a return to the rule of law and the constitution. Thereafter there must be a period of economic and political rehabilitation during which passions may cool ant the economic and social strenght of the country may be restored. There can be no question of immediate independence for that territory nor do we or have we ever contemplated immediate majority rule. Opportunities must undoubtedly be given to the Africans to play their part in government but I sincerely hope that this will be in partnership with the Europeans. The Africans must also be given the necessary training and experience before they can play their full part. I can well understand your desire to ensure that on the borders of Mozambique there will be a stable and friendly regime. Let me assure you that is our wish and intention also.

4. I realise that our decision to go to the Security Council last week under Chapter VII of the United Nations Charter with a resolution calling on the Portuguese Government not to permit oil to be pumped through the pipeline from Beira to Rhodesia and not to receive at Beira oil destined for Rhodesia has resulted in a feeling in Portugal that Portugal was being victimised. Let me say once again that this was not and is not our intention.
But the arrival of the JOANNA V at Beira created a most dangerous emergency and in the absence that oil would not be pumped to Rhodesia we had no alternative but to appeal to the Security Council.

5. I hope that despite your natural feelings about the Security Council´s decision you will on reflection agree that this resolution however unpalatable overrides the principle to which I know your government attaches such importance and which in normal circumstances we equally respect, namely free access to the sea for land-locked countries. But it would be tragic if Portugal´s collaboration and the long-standing friendship between our two countries were now to be endangered just for the sake of the first and last tanker to carry oil to Beira for the illegal regime in Rhodesia.

***

Agradeço a Vossa Excelência a sua mensagem pessoal, entregue pela Embaixada em 14 do corrente, e noto nos seus termos o desejo de um acordo para evitar, no interesse recíproco, a deterioração da situação na África Central e das relações anglo-portuguesas. Partilho inteiramente daquele desejo, bem como desejo de que continue no futuro a longa amizade entre os dois países. Entendo que só será necessário para isso que os direitos sejam respeitados e os interesses de uma e outra nação se conciliem na medida do possível, pois não seria curial que os interesses britânicos houvessem sempre de sobrepor-se aos mais, e que as boas relações só pudessem ter por base a plena concordância com a política britânica em todas as circunstâncias. Ora Portugal não contribuiu para a situação existente na área, as providências tomadas agravam o direito e os nossos interesses e não temos por nosso lado consciência de haver ofendido interesses legítimos britânicos com uma política que o Governo de Sua Majestade tem qualificado de impecável nem com uma neutralidade que é nosso direito e dever manter.
Temos certamente interesse comum na manutenção da paz e da estabilidade de toda a região. Quanto ao desenvolvimento do regime responsável em África, mesmo com as limitações da mensagem, dando-se à expressão o significado mais geral de governo de maioria numericamente considerada, ouso afirmar que desse modo nos arriscaríamos a introduzir na questão um elemento ideológico e de política interna que só haverá inconveniente em trazer à discussão internacional e à definição do estado das relações entre povos.
Poderá o problema da Rodésia atear um vasto fogo em África, mas não creio que isso aconteça por culpa daquele país, senão em querer ser independente como outros aos quais a independência foi generosamente concedida. Não creio também que esse incêndio possa ser ateado por desejo da generalidade dos países africanos. Estes, segundo o que pensamos saber, não sentem as profundas paixões que na mensagem se lhes atribuem, nem teriam por si os meios de desencadear quaisquer hostilidades. Estas só seriam possíveis com elementos fornecidos pelas grandes potências, e, dada a posição assumida pela Rússia e pela França e as dificuldades enfrentadas pelos Estados Unidos na Indochina, só a Inglaterra os poderá fornecer. É certo que a Rodésia desrespeita neste momento a estrutura constitucional britânica, e constituiu um governo ilegal, mas a sua dedicação à Coroa e o desejo de continuar na Comunidade Britânica merecem, no alto plano do interesse britânico, que o assunto seja tratado com alguma indulgência. Bem mais antiga é a estrutura constitucional portuguesa e temos visto que ela não merece um respeito absoluto ao Governo de Sua Majestade, pois que contra ela se pronuncia amiúde e se esforça por destruí-la. Por outro lado, não se verifica que o comunismo tenha alastrado mais facilmente nas zonas onde se adopta uma política diferente da que o Governo de Sua Majestade prossegue há anos.
Agradeço os esclarecimentos que Vossa Excelência me dá quanto aos objectivos do Governo de Sua Majestade na Rodésia e retenho o propósito de afastar os conceitos de imediata independência e governo de maioria; mas ignoro até que ponto e em que medida o Governo de Sua Majestade pode opor-se às pressões africanas e à própria evolução dos acontecimentos. Tem-se visto a cada passo escaparem estes ao controlo dos governos e sobreporem-se às melhores intenções, pelo que é de esperar não dê a orientação anunciada no presente para a Rodésia resultados diferentes dos alcançados noutros territórios.
Aprecio a compreensão pelo nosso desejo de paz e de estabilidade nas fronteiras de Moçambique e registo o seu desejo e a sua intenção de que haja na Rodésia um regime estável e para nós amistoso. No momento não julgamos ameaçados pela situação na Rodésia; mas depois da independência tal qual a prevê o Governo de Sua Majestade, não poderá ele prestar ele quaisquer garantias quanto ao procedimento daquela. Nem sei mesmo como conciliar o desejo e a intenção que manifesta com o facto de os chefes terroristas que actuam contra Moçambique serem regularmente recebidos pelo Alto Comissário Britânico em Dar-es-Salaam ou com o encorajamento dado por agentes britânicos na Zâmbia a outros terroristas que entram pela fronteira leste de Angola.
Lamento não considerar devidamente justificada a convocação do Conselho de Segurança, sobretudo quando se realizavam negociações em Lisboa e não se sabia a que resultados chegariam. Vejo que não foi possível ao Governo de Sua Majestade fazer vingar a intenção ou desejo de não transformar Portugal em vítima, mas o texto da resolução foi redigido pelo representante britânico e nela é bem visível o propósito de apontar Portugal como o responsável de uma situação que o Governo de Sua Majestade sabia não depender dele. Se o Governo britânico pretendia a autorização de usar a força no apresamento de petroleiros e o uso dessa força invalidava todas as hipóteses futuras, nenhuma razão se descortina para Portugal ser citado com imposições especiais a não ser para o marcar como faltoso diante do Conselho, onde aliás, pela voz de alguns, parece ter-se dado pela deselegância e inutilidade do acto.
Não posso ocultar a minha surpresa pela forma como é encarado o livre acesso de países interiores ao mar. Está o princípio consignado numa convenção, ao que suponho assinada e ratificada pelo Reino Unido. Vejo que se admite o respeito por aquele princípio mas apenas quando as circunstâncias forem normais, o que leva naturalmente a perguntar quem é o juiz dessa normalidade, questão tanto mais grave quanto é sabido que o Conselho de Segurança não pode legislar contra a lei internacional. Por outro lado, não vejo como os interesses de Portugal poderiam ser mais protegidos se colaborasse na denegação daquele princípio, que se pretende impor no prosseguimento de uma política que de há anos nos é hostil e que, além da recusa de compromissos ou garantias, permanece confessadamente apegada à mesma orientação.
Quanto ao caso específico do petroleiro que aportou à Beira com combustível para a Rodésia, o assunto perdeu interesse depois da decisão do Primeiro Ministro Ian Smith, e atentos os meios aero-navais que o Governo do Reino Unido concentrou ao largo daquele porto, o caso só poderá repetir-se se a Marinha britânica quiser.

20.4.1966
Oliveira Salazar

domingo, 24 de Junho de 2007

Avó

A minha avó Leonor, viúva depois de 70 anos de casamento, aguenta-se com as inevitáveis lágrimas : "é a fome de amor, é a fome de amor", diz.

Votar

Cada vez mais me convenço que votar é um insulto que nos fazemos.

domingo, 3 de Junho de 2007

Burka no jardim

Ontem, na Quinta das Conchas, um casal muçulmano chamou as atenções: o homem empurrava o carrinho com o filho, e a mulher, ao seu lado, estava vestida de preto dos pés à cabeça, completamente coberta. As pessoas sentadas nos bancos olharam e uma delas personificou um certo tipo de orgulho ocidental: "que estúpido, não devíamos deixar cá entrar esta gente."

sábado, 2 de Junho de 2007

Médicos

Uma boa notícia relativa aos médicos, especialistas em más notícias: segundo o jornal Público, "três quartos dos médicos do Santa Maria recusam fazer abortos". Em vez de greves, de mortais casos de negligência ou de atestados fraudulentos, a afirmação do brio profissional, a fidelidade aos princípios deontológicos.

Ota

Pulido Valente (fará muita falta quando desaparecer), a propósito do eventual aeroporto da Ota:
"A megalomania não ajuda um país pequeno."

terça-feira, 29 de Maio de 2007

Botas

Dia de sol luminoso em Lisboa e as ruas cheias de botas de cano alto. A moda pode ser uma tolice.

segunda-feira, 28 de Maio de 2007

Taça


Já se merecia um título.

quarta-feira, 9 de Maio de 2007

Sarkozy


Nicolas Sarkozy a gagné, bien sur!

Este blogue tem grande empatia por Sarkozy: porque é inteligente e enérgico, porque tem um discurso que encoraja e não esquece as gerações passadas que fizeram a França, porque acredita nas responsabilidades individuais e nas capacidades colectivas, porque tem a elegância superior de não agredir os adversários.

Seguem-se as palavras de Sarkozy.
Je crois, d'abord et avant tout, à la France et aux Français. Notre pays n'est pas seulement grand par son histoire : il est grand aussi par ses capacités. Les Français ont montré qu'ils savaient réussir dans le monde d'aujourd'hui. Ils font partie des peuples qui connaissent le mieux les autres pays du monde et qui y voyagent le plus. Ils se sont parfaitement adaptés à l'ère Internet. Ils ont créé des entreprises de premier ordre dans les domaines les plus pointus ; beaucoup de ces entreprises sont aujourd'hui des championnes mondiales. Enfin, malgré leurs différences, les Français ont toujours eu la générosité de ne pas abandonner à leur sort les plus faibles d'entre eux.
Je crois à la confiance et au respect de chacun. La France est pleine de talents qui ne parviennent pas à s'épanouir, parce qu'on ne leur fait pas confiance et qu'on ne leur donne pas le respect qu'ils méritent. Je veux que les talents des jeunes et des minorités soient respectés. Je veux que les femmes aient réellement les mêmes chances que les hommes. Je veux que ceux qui sont parvenus par eux-mêmes à l'excellence réussissent aussi bien que ceux qui ont fait les meilleures écoles à vingt ans.
Je crois au travail et à sa récompense. Dans une société juste, les distinctions entre les citoyens ne doivent pas dépendre de leur naissance, de la couleur de leur peau ou d'études lointaines : c'est le travail fourni qui doit être le critére de la réussite. Ceux qui veulent travailler plus doivent pouvoir gagner plus. Ils doivent pouvoir conserver le fruit de leurs efforts et l'utiliser pour préparer l'avenir de leur famille.
Je crois à la solidarité avec les plus faibles. Il peut arriver à chacun d'entre nous d'être, à un moment ou un autre, dans une situation difficile. La solidarité nationale doit continuer à jouer pour qu'une mauvaise passe ne se transforme pas en exclusion durable. Ceux qui veulent sortir de la précarité doivent pouvoir compter sur l'entier soutien de la communauté.
Je crois au pouvoir de la vérité. Les Français savent qu'il faut travailler plus, et non pas moins, pour s'enrichir. Ils savent qu'on ne pourra intégrer les immigrés qu'en contrôlant efficacement nos frontières. Ils savent bien, parce qu'ils en font l'expérience tous les jours, que notre droit du travail multiplie les obstacles à l'emploi et que notre Etat a besoin de réformes profondes. Ils savent que si on abaisse le niveau des diplômes, cela nuira aux élèves et aux étudiants au lieu de les aider. Enfin, ils savent que les délinquants ne cesseront de nuire que s'ils sont réprimés. Il faut avoir l'honnêteté de dire ces vérités pour pouvoir, ensuite, faire les réformes dont le pays a besoin.
Je crois au mouvement. Dans un monde qui change sans cesse, la France ne peut pas vouloir rester immobile. Nous devons améliorer notre éducation nationale, notre marché du logement, notre droit du travail, notre justice, notre fiscalité. Nous devons adapter nos institutions, en renforçant les contre-pouvoirs qui font la force d'une démocratie robuste. Nous devons rapprocher les discours politiques des préoccupations du peuple français. Il n'y a pas d'avenir à répéter les vieilles recettes qui ont toujours échoué.
Je crois à une France respectée dans le monde. Dans les années qui viennent, la France sera confrontée à des choix majeurs en politique internationale. Nous devrons poursuivre la construction de l'Europe dans le respect des peuples qui la composent. Nous devrons mieux prendre en compte l'émergence de nouvelles puissances : la Chine, l'Inde, la Russie, le Brésil. Enfin, nous devrons jouer tout notre rôle dans la lutte contre le terrorisme mondial. La France devra défendre ses intérêts dans un monde plus complexe, avec fermeté mais sans postures inutiles.
Je crois que tout peut devenir possible. Les Français veulent le changement et ont tous les atouts pour le construire. Les services publics réformés peuvent devenir des acteurs de ce mouvement. Avec l'appui de tous les Français, la promotion sociale, le droit à la propriété, une meilleure école pour les enfants, un meilleur salaire pour soi, une réelle égalité entre hommes et femmes, peuvent redevenir des objectifs atteignables pour chacun. Alors, les Français retrouveront le goût de vivre ensemble et la France sera, de nouveau, un exemple pour le monde.


Para quem quiser conhecer um pouco o novo Presidente da República Francesa: http://www.sarkozy.fr/home/

Jardim

Imaginemos que Alberto João Jardim tinha sido derrotado nas eleições de domingo: o "engenheiro" que nunca quis ser engenheiro e nunca praticou a engenharia, teria aparecido sorridente a vitoriar a mudança histórica na ilha, a cumprimentar os corajosos madeirenses, a prometer a colaboração do Governo para maravilhas tecnológicas e reestruturações produtivas. Mas, Jardim ganhou com esmagadora maioria, e o Senhor Sócrates, que adora microfones e câmaras, não se mostrou, não disse uma palavra, e delegou num sisudo Vitalino a desvalorização do acto. Os socialistas quando perdem azedam e até esquecem a elementar cortesia.

domingo, 6 de Maio de 2007

Porto 1757

Há 250 anos, em Fevereiro de 1757, deu-se no Porto um motim. Os participantes gritavam "viva o rei, viva o povo, morra a Companhia". O rei era D. José e a Companhia era a da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, criada no ano anterior: as exportações do vinho do Porto para Inglaterra tinham diminuído, a ausência de fiscalização favorecia a degradação da qualidade do vinho, e o poder central estava empenhado em aumentar as suas competências e a sua capacidade em se fazer obedecer.
O Porto teria então cerca de 30.000 habitantes e aproximadamente 1.000 tabernas. Receando o aumento dos preços e o encerramento de muitas tabernas, animados por uma coragem de possível origem etílica, os populares saquearam as instalações da Companhia e coagiram as autoridades judiciais à anulação das decisões régias. Para Sebastião José de Carvalho e Melo o motim era coisa insuportável e "sacrílega", que minava a sua autoridade. A repressão que se seguiu perdurou na memória da cidade. Mais de 3.000 militares impuseram a ordem na ruas, e garantiram um julgamento expedito e severo: mais de 200 condenados a diversas penas: açoites públicos, expropriações, degredo em África, e 26 condenados à morte, que foram enforcados e cujos patíbulos se espalharam pela cidade. O terror do futuro marquês silenciou de medo o Porto. E instalou-se no reino.

Marcha do charro

Ontem em Lisboa e no Porto - e em todo o planeta - simpatziantes da famosa cannabis passearam-se pelas ruas, denunciando o proibicionismo, apelando à legalização. Confraternizaram, cantaram, fumaram, prometeram organizar uma associção.
Não é preciso ser-se fumador - já lá vai o tempo dos charros partilhados com os amigos no Bairro Alto - para sentir que a probição é uma enormidade jurídica que prejudica os consumidores, diminui a credibilidade do Estado e desvia as Polícias da criminalidade que urge combater.

quinta-feira, 5 de Abril de 2007

Engenheiro ?

O Público, em meritório exercício de jornalismo de investigação, está a dar-nos a conhecer como se processou a licenciatura em engenharia civil do senhor José Sócrates. O Gabiente do Primeiro-Ministro tem afirmado repetidamente que a licenciatura foi obtida em 1996. Segundo o jornal, "um estudo do Ministério do Ensino Superior revela que em 1996 não houve nenhum aluno diplomado em Engenharia Civil, pela Universidade Independente (UnI)". Alguém se enganou ou alguém mente, já que a verdade não admite duas versões opostas.
Quem quiser encontra no Público os pormenores da história. Abundam as inconsistências, as contradições, as suspeitas. A ideia que fica é esta: absorvido pelas exigências da vida partidária, sem pachorra para as exigências académicas de uma licenciatura séria, Sócrates, sabedor da utilidade curricular do canudo, matriculou-se na UnI para despachar o assunto pela via do favor administrativo. Mas a sua pressa e a incompetência dos responsáveis da UnI impediram que tudo se processasse, ao menos, dentro do formal respeito das regras.
Tudo isto é de uma miséria moral confrangedora. Em Portugal, esta descoberta macula, motiva desdéns, troças e anedotas. E nada mais. Sócrates sai humilhado com a revelação da inepta negociata, mas não perde o emprego. Em qualquer país decente, onde a lei é levada a sério, os tribunais são independentes , as polícias investigam sem interferências do poder político e a opinião pública conta, o assunto obrigaria à demissão e a um inquérito judicial.

quarta-feira, 4 de Abril de 2007

Páscoa

Como a Páscoa é, religiosamente, mais importante que o Natal, a todas uma Páscoa bem passada: mesa farta, convívio familiar animado e descanso tranquilo. Não pensem em chatices ou compromissos. Ofereçam-se uma trégua. E se tiverem a genuína fé que consola, peçam a Deus que nos ajude a todos.

segunda-feira, 2 de Abril de 2007

O cartaz

O cartaz que o PNR fez colocar no Marquês de Pombal causou sensação: foi noticiado por televisões e jornais, mereceu formais condenações dos partidos com representação parlamentar. O pior do cartaz não é a sua antipatia para com os estrangeiros ou a implícita falta de memória para com a emigração portuguesa. O pior do cartaz é estar errado. Se não fossem tão primários, se fossem um pouco menos ignorantes, os dirigentes do PNR saberiam que a emigração tem sido parte da solução dos problemas económico-sociais em Portugal; saberiam que os emigrantes portuguesas foram, ao longo do século XX, a principal exportação do país. Mais de 3,5 milhões de portugueses emigraram durante o período e todos ganharam com isso: as autoridades que viram evitado o desemprego, os emigrantes que encontraram trabalho no estrangeiro, a economia que precisava dos capitais financeiros, das famosas remessas dos emigrantes.
Ou seja, a História prova que a emigração é a solução.

Porque esperam?

As forças iranianas raptaram recentemente 15 militares da Grã-Bretanha em águas internacionais; a embaixada inglesa em Teerão foi este fim de semana atacada por manifestantes; as autoridades iranianas continuam o seu programa nuclear e continuam a fornecer armamentos às xiitas do Iraque; o Presidente iraniano não perde uma oportunidade para atacar verbalmente o Ocidente: este Irão não é domesticável com apelos ou sanções; é um obstáculo às forças ocidentais e uma ameaça séria à segurança de Israel.
Por isso a pergunta de retórica: porque não se dá uma lição militar ao regime teocrático iraniano? Porque impedem os americanos que os israelitas façam o que se impõe?

terça-feira, 27 de Março de 2007

Monocle


É uma revista mensal, que nasceu este ano. O papel merece ser cheirado; as fotografias escolhidas a dedo; os textos variados, instrutivos e bem escritos: da marinha japonesa ao petróleo da Noruega, dos investimentos chineses em África aos projectos económicos do Chile. E ainda moda, arquitectura, empresas bem sucedidas. É a Monocle. Imperdível.

domingo, 25 de Março de 2007

MNE

O MNE - Ministério da Nulidade Externa - está de parabéns. Entretido a reformular a rede consular portuguesa, o MNE parece que tenciona encerrar alguns dos movimentados consulados em França. É imperativo, porque os emigrantes são uns descarados. Depositam diariamente milhões de euros nos bancos portugueses e, insatisfeitos pela ajuda que prestam à nossa economia, ainda se atrevem a dar o que fazer aos funcionários diplomáticos.
O MNE poupa com sabedoria: encerra consulados onde vivem milhares de portugueses e manter embaixadas na Etiópia e em Malta.

Europa

O Tratado de Roma, berço da actual União Europeia, faz 50 anos. O federalismo que inspira doutrinariamente o projecto europeu nunca terá a harmonia, a eficácia e a naturalidade do federaliismo norte-americano. Uma moeda única é tecnicamente viável e aproxima povos, mas as consequências sentimentais de um passado tantas vezes violento não se anulam com prosperidade.
Contudo, como portugueses, cumpre-nos agradecer a paciência e a prodigalidade da UE. Claro que, por corrupção, inépcia e irresponsabilidade, temos desperdiçado milhões, para prejuízo de todos. Os vícios do Estado não inspiram respeito e contaminam toda a sociedade. Mas sem a UE, Portugal, que recusou ser importante no mundo ao abandonar o Ultramar, seria hoje um país miserável.

T.C.

É uma dos poucos organismos de excelência da nossa administração pública. O Tribunal de Contas fiscaliza ministérios, municípios, empresas públicas, hospitais, universidades; e divulga o trabalho que produz: os seus relatórios de auditoria e pareceres estão disponíveis na internet. Passar os olhos pelas conclusões dos relatórios gera dois sentimentos: ou nos repugnamos ou nos divertimos: a lista de irregularidades, de deficiências administrativas, de esbanjamento de dinheiros públicos, que o TC detecta, é impressionante. Não fortuitamente, o TC não tem poderes coercivos relevantes: não sentencia prisões, impedimentos, afastamentos.
Os relatórios do TC não permitem outra interpretação: o Estado em Portugal não é pessoa de bem. O Estado português é o grande adversário dos portugueses. É o grande bandido impune.

sexta-feira, 23 de Março de 2007

Concurso choque


Se este ilustre senhor
vencer o concurso da RTP
- que é mais uma fantochada da dispensável empresa -
já se sabe: cairá o carmo e trindade para a esquerda,
cujo exército de pensadores enfadonhos, invejosos e rancorosos,
atacará o homem com as omissões e invenções da praxe. Tal como nos delirantes tempos do PREC.

terça-feira, 20 de Março de 2007

Mais Milhões para as Escolas

O Governo anunciou ontem mais um pomposo programa: o da modernização do parque escolar secundário. São 940 milhões de euros para tornar as escolas funcionais e aprazíveis, para que os alunos, deslumbrados com tanto conforto, se dediquem a estudar. Não duvido da necessidade de renovar equipamementos, pintar fachadas, mudar telhados. Mas como as escolas terão de ser, mais ano menos ano, alienadas, cedidas à iniciativa cooperativa e privada, parece evitável despesa.
A Resolução do Conselho de Ministros que anuncia e justifica a decisão está disponível no portal electrónico do Governo. Assume a "ausência de uma correcta e contínua política de conservação e manutenção" e tem a curiosidade de fazer o elogio às escolas construídas pelo Estado Novo, de
"forte uniformidade e sobriedade formal, robustez construtiva e boa qualidade dos materiais empregues".
Com tanta obra à vista, os empreiteiros esfregam as mãos de contentes, e os alunos já sabem que vai ser uma festa de folgas no horário.

Viciados

Os portugueses, que, em geral, trabalham pouco em Portugal, têm dificuldades em dormir. Os portugueses, ansiosos e tristes, stressados e deprimidos, gastaram, em 2006, mais de 80 milhões de euros em sedativos e ansiolíticos. Levam-se demasiado a sério e esquecem-se que não viverão até aos 150 anos.

domingo, 18 de Março de 2007

Má publicidade

Acabei de ver, pela centésima trigésima vez, a publicidade de uma empresa farmacêutica, que promete a cura para a tenebrosa "disfunção eréctil" .
O anúncio parece-me desastroso. Um casal de meia idade está deleitadamente a namorar e toca o telefone. Dá-se primeiro disparate: o homem interrompe os mimos e atende. E logo a seguir, a barbaridade: o homem diz que vai sair imeditamente, acabando-se o amor. O aúncio acaba por ser um incitamento à discórdia conjugal, ao incumprimento dos deveres, à secundarização do amor.

quinta-feira, 15 de Março de 2007

Constança

Constança Cunha e Sá lembra no Público esta verdade esquecida:

"José Sócrates, esse estadista de última hora, foi sempre um homem do aparelho, um cacique local que cresceu nos jogos partidários e se distinguiu nos golpes de bastidores."

domingo, 11 de Março de 2007

Sidónio


Sidónio Pais, aclamado nos Paços do Conselho em Lisboa, olha a máquina consciente da posteridade do acto. Parece dizer ao fotógrafo não falhes, que saía bem, que seja registo eterno de mim.

Universidades à rasca

Parece que as Universidades privadas estão a perder clientes. Cerca de 30.000 alunos nos últimos 9 anos, segundo a notícia do Público. Não me surpreende e não me entristece. É quebra merecida e justa: os serviços prestados são genericamente maus, abundam professores imprestáveis e alunos ignorantes. Os primeiros fazem figura de corpo presente em troca do salário, os segundos acham estudar uma maçada e esmeram-se a cabular. Nas universidades privadas a obtenção da licenciatura ou do mestrado não decorre do mérito; garante-se com o pagamento pontual das propinas. As aulas pasmam e desolam, o debate é uma miragem, o vigor intelectual rareia, a investigação escassa.
Durante anos, todos andavam contentes com a ficção: as universidades orgulhosas das contas de gerência, os alunos eufóricos com o canudo e o Estado vaidoso das suas estatísticas de nível quase europeu. Era uma triple entente que parecia funcionar.
Estaria tudo bem se a sacana da realidade não fizesse das suas. Mas fez. E as dezenas de milhares de licenciados desempregados, as dificuldades económicas e as falências das universidades, os avisos e as queixas das entidades empregadoras, provaram que este casamento de conveniência não poderia aguentar tanta traição às exigências da economia global.

sábado, 10 de Março de 2007

Estrangeiros

Quer conhecer estrangeiros simpáticos e muito conversáveis, que se interessam por Portugal e gostam de Lisboa? Vá à Torre do Tombo. Eles estão por lá.

quinta-feira, 8 de Março de 2007

Sabedoria americana

“The best way to persuade people is with your ears - by listening to them.”

Dean Rusk, Secretary of State

Jornais patéticos

Os diários desportivos que se publicam em Lisboa - A Bola e Record - rivalizam no facciosismo. Secundarizam o importante e fazem manchetes com bagatelas e boatos. Patéticos e quase ilegíveis, dão-nos saudades dos anos 80, quando os jornais desportivos eram publicados três vezes por semana, tinham no quadro jornalistas dignos desse nome e não curvavam a espinha aos donos da bola.

quarta-feira, 7 de Março de 2007

Justiça em Timor

Informa o Público que um tal Rogério Lobato, "ex-ministro do Interior de Timor-Leste, foi hoje condenado a sete anos e seis meses de prisão, acusado de 18 crimes de homicídio e 11 de homicídio tentado."
A notícia é lacónica e deixa incertezas: o ex-ministro ficou-se pelo apoio logístico e instigação moral ou também disparou? Seja como for, a sentença parece escandalosamente leve e não desencoraja a arreigada cultura de violência existente em Timor: 18 homicídios são punidos com 90 meses de prisão: média de 5 meses de cadeia para cada morto. Cheira-me que os juizes timorenses estão a receber formação dos seus colegas portugueses.

terça-feira, 6 de Março de 2007

Vai uma aposta?

O Sporting vai jogar o acesso à final da Taça em Alvalade com o Beira Mar. Contra o Belenenses ou o Braga seria, segundo a lógica, mais complicado. Contudo, há um detalhe a não esquecer: o Sporting sabe complicar como nenhum outro, é vulgar a sua estupidez de esbanjar oportunidades de ganhar. Quando não tem um azar danado ou não é prejudicado por árbitros tolos, o Sporting esmera-se a cometer proezas como não marcar um único golo ao último classificado ou a empatar cinco dos últimos seis jogos. Ou seja, não surpreenderá que volte a falhar e perca com o Beira Mar. Seria mais um ano sem títulos. Seria o costume.

segunda-feira, 5 de Março de 2007

Portas

Paulo Portas quer regressar à presidência do CDS/PP e aspira liderar a oposição ao Governo. Os excessos dos tempos do Independente tornam-no intragável a muitos mas não anulam as qualidades perenes: é imbatível na oratória, é inteligente, é competente, é ambicioso, tem sentido de estado, incomoda-o este Portugal com tanto para melhorar. E tal como Sócrates, também sabe cativar e conquistar as simpatias dos jornalistas. Tem, contudo, um problema que parece irremediável: Portas é maior que o seu Partido e nunca o PP terá mais votos que o PSD, por maior que seja a divisão e a desorientação deste: em Portugal vota-se porque se gosta da cara de fulano e se detesta beltrano, vota-se por fidelidade a símbolos e ficções, e são poucos os que se dão ao luxo de votar comparando governações ou examinando ideologias e propostas.
No PP Portas poderá liderar a oposição, demolir a arrogância do Primeiro Ministro, demonstrar a insuficiência dos remendos que são vendidos como reformas, envergonhar a vaidosa associação de medíocres que é o PS.
Mas nunca vencerá as eleições legislativas. E nunca chegará a Primeiro Ministro. Lamentavelmente.

sexta-feira, 2 de Março de 2007

Mocidade


Meninos da Mocidade Portuguesa numa exposição sobre regras de trânsito. A Mocidade era patriotismo e camaradagem, hierarquia e desporto, alegria e obediência.

quinta-feira, 1 de Março de 2007

Mais dois

É uma vergonha passar uma semana sem escrever no blogue. Desculpa blogue. Não é por mal. É falta de tempo e é não ter o que escrever.
Acabo de ler que esta semana foram agredidos mais dois professores. E o Público avança números desoladores:
"Segundo números avançados ontem pelo coordenador do Observatório de Segurança Escolar, João Sebastião, no último ano lectivo registaram-se 390 agressões contra professores dentro e nos acessos aos estabelecimentos de ensino, 207 agressões contra alunos e 766 relatos de injúrias contra funcionários. No total registaram-se 3523 ocorrências contra pessoas, às quais se juntam ainda 1768 acções contra o património – roubo de bens de alunos, professores, funcionários e equipamentos – só nos estabelecimentos de ensino sob alçada das direcções regionais de educação do Norte e Lisboa."
Os 30 anos do sistema de ensino desta III República levaram a isto: à violência quotidiana, ao crime banalizado. A autoridade não se exerce ou não existe; os alunos insultam, roubam, ameaçam e não aprendem; os professores não conseguem ensinar e são agredidos; os pais são brutais deseducadores. A escola pública fracassou. É a grande calamidade dos tempos que correm. E os irresponsáveis do Ministério não se decidem a avançar para a única possível solução: a privatização do ensino primário e secundário.

terça-feira, 20 de Fevereiro de 2007

Barcos








O Tejo continua navegado: cargueiros e cacilheiros, rebocadores e paquetes, navios de guerra e veleiros. Outros havia que desapareceram.

Kennedy e Salazar




The White House,
27/8/1963
Dear Mr. Prime Minister

I great appreciate your willingness to receive Mr. George Ball for extended discussions on matters of mutual concern to our two countries. Mr. Ball has my complete confidence. He is prepared to discuss all questions between our two countries and will report directly to me. You may speek as freely, fully, and candidly to him as you would to me, and i have asked him to do the same in my behalf. I recognize that our countries each face complicated problems and that our interests may not always be identical. However, i hope that by careful exploration in a spirit of friendship we can arrive at a larger common understanding.
Sincerely

Jonh F. Kennedy
**********
Lisboa,
7/9/1963

Senhor Presidente
Agradeço a Vossa Excelência a amabilidade da sua carta de 27 do passado mês de Agosto e ao mesmo tempo a atenção de ter enviado a Lisboa, como seu representante, o Sr. G. Ball, para discutir com o Governo português questões em aberto entre os nossos dois países. Penso ter sido de grande utilidade poder-se falar tão franca e lealmente como fizemos com a liberdade que Vossa Excelência se dignou dar ao seu Enviado e a mim próprio. Creia, Senhor Presidente, que nenhum de nós escondeu o seu pensamento ou quis de qualquer forma ocultar o seu modo ver. Encontramo-nos em face de questões muito complicadas e difíceis, mas ocuparmo-nos delas tão abertamente e em espírito de amizade, só pode ter contribuído para que achemos um caminho de boa cooperação que foi a situação do passado. Nada nos seria mais grato do que ir reduzindo as diferenças que nos separam e poder salvaguardar num lato entendimento os nossos interesses comuns.
Com a mais subida consideração, de Vossa Excelência, sinceramente
Oliveira Salazar

Alberto João Jardim

Este blogue tem genérica e justificada repulsa pela classe política portuguesa. Talvez não seja tão danosa quanto a da I República, mas está fora de dúvida o seguinte: a grande maioria dos nossos eleitos, deputados e pessoal municipal, disponibilizaram-se para a política porque a política garante trabalho fácil pela vida fora, porque a política garante rentáveis negócios e engorda quase sem esforço as contas bancárias.
No meio desta multidão de chicos-espertos - que berram propostas demagógicas, que mentem aos eleitores, que obedecem cegamente à disciplina partidária, que são incapazes de produzir um qualquer estudo digno desse nome, que passeiam a sua vaidade pelo Parlamento, que toleram o laxismo dos serviços municipais, que desperdiçam dinheiros públicos com a facilidade de quem bebe um chá - alguns existem que se destacam porque têm obra feita que os eleva.
Alberto João Jardim é um deles. Por vezes exagera e excede-se na linguagem. Tem um estilo de comunicação característico, insusceptível de ser adaptado aos gostos do jornalismo esquerdista de Lisboa. Há mais de 30 na Presidência do Governo Autónomo da Madeira, Jardim mudou para melhor a Madeira. A Madeira não perdeu as suas raízes e não abandonou as suas tradições. Tem uma identidade que se alimenta do orgulho, que conservou o que tinha de válido a conservar e que conseguiu modernizar-se. Aproveitou os subsídios da Europa para construir e renovar infra-estruturas, para escolas, hospitais e bibliotecas, para restaurar o património. Tem uma política de turismo bem sucedida que o continente deveria aproveitar.
Jardim é atacado e por muita gente detestado em Lisboa, porque acumula uma impressionante série de vitórias eleitorais, e porque nunca teve medo das esquerdas, porque nunca a elas se curvou, porque nunca lhes pediu desculpa ou facilitou a vida, porque sempre as combateu e denunciou. Governante competente e lutador incansável, Jardim é uma das grandes referências da direita portuguesa.
Segue-se o extracto de um texto recentemente publicado pelo Presidente do Governo Autónomo da Madeira, integralmente disponível na página oficial abaixo destacada.

Hora de medíocres

"Os melhores do País, por um lado foram sendo cativados pelo sector privado e, por outro lado, muitos, mesmo muitos, não estão para se transformar em “mártires” e assumir responsabilidades públicas onde sabem que vão ser impunemente enxovalhados, desconsiderados, que terão de aturar o direito “democrático” dos analfabetos e dos incompetentes dizerem asneiras e neles interferir, ou mesmo sabotar, terão de aturar invejas patológicas e viver mergulhados na autêntica “selva” em que se transformou a vida portuguesa.
Tudo isto devido à grande alarvice em que se tornou a formação da Opinião Pública.
Assim, muito perdeu e perde Portugal.
Mas há uma mediocridade quase colectiva, que gosta disto.
Outro factor que contribuiu para a decadência nacional, foi o sistema de ensino. A ausência de formação cívica capaz; o facilitismo; a falta de rigor e de exigência que conduz à menoridade do Conhecimento; a preguiça na Inovação; a secundarização ou o quase ignorar do Mérito, em prol da massificação generalista e mediocratizante; o laxismo ante a indisciplina generalizada.
Está-se mesmo a ver, o que representam para Portugal eventuais Quadros, dirigentes públicos, saídos de um sistema há décadas assim.
Depois, a partidarite aguda que se apossou do País. Tudo anda à volta, e só, dos interesses dos Partidos políticos, tornando estes como que os proprietários exclusivos da Vida nacional, o que acaba por marginalizar tanta boa gente de quem o Estado necessita.
Nenhum País funciona, quando tudo se resume e limita aos interesses dos Partidos. Dá lugar ao carreirismo, incluso de gente que desde muito nova outra coisa não faz, senão “trabalhar para o Partido” e “fazer política”, inócua para o Interesse Nacional."

segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2007

Lisboa Operária


Fábricas de Lisboa no começo do século XX. Chocolates e máquinas de costura da Singer. Os trabalhadores olham o passarinho.

domingo, 18 de Fevereiro de 2007

Arquivo Fotográfico de Lisboa







A Câmara Municipal de Lisboa anda nas bocas do mundo. Suspeitas de corrupção e de nepotismo. Grandes obras investigadas pela Polícia Judiciária, funcionários constituídos arguidos. Mais de 10.000 funcionários e centenas de milhões de euros de dívidas. Apesar desta desolação, corriqueira na nossa calamitosa administração local, a CML tem alguns serviços que trabalham com brio e qualidade. O Arquivo Fotográfico é um deles: milhares de fotografias catalogadas e digitalizadas, disponíveis para consulta. Imune ao caos dos dias que correm, o AF cumpre a sua missão de salvaguardar e comunicar a memória da cidade.

sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2007

NÃO

Fazer um aborto até às dez semanas é, para os seus defensores, um direito inalienável da mulher, fazer um aborto à décima quinta semana da gravidez já é inaceitável, já nao pode ser feito em "estabelecimento de saúde autorizado", já é crime passível de punição. Fazer das semanas o critério diferenciador das normas jurídicas é civilizado, chique, realista, uma evidência típica das sociedades liberais, advogam os adeptos da liberalização. Porque, como ontem disse o engenheiro Sócrates, matar, em hospital público ou clínica privada, um ser vivo que cresce, é escolher a modernidade: premiando quem aborta, subsidiando abortos, ainda seremos o país mais avançado mundo.

quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2007

Funerais

Os funerais, que são a mais desoladora das cerimónias, o mais devastador dos deveres familiares, têm apenas uma virtude: reunem quem há muito não se vê, dão a oportunidade de iniciar ou reatar prazenteiros relacionamentos.

segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2007

Avô Chico


Francisco Neto

1918 - 2007


Uma vida cheia jamais caberá num post ou até num livro. Mas quando morre um dos nossos, não nos podemos calar . Foram 70 anos de casamento, foram 6 filhos, 11 netos e 8 bisnetos. Foram mais de 50 anos de trabalho duro, entre quintas e fábricas na Beira, e minas em França. Foram muitos raspanetes, conselhos e encorajamentos.
Avô : merecias outra morte, merecias mais uns anos porque estavas lúcido, porque te mexias bem, porque cuidavas da avó e ela cuidava de ti, porque tinhas muitas suecas para jogar e mais alguns bisnetos a quem sorrir. E porque querias, como queremos todos, chegar aos 100.

domingo, 4 de Fevereiro de 2007

Uma menina brincalhona


Uma menina brincalhona.

Esta é uma das liberdades


Com os terroristas não se negoceia. Os espanhóis, que sofrem o terrorismo, sabem-no. Ontem, em Madrid, centenas de milhares de espanhóis mobilizaram-se admiravelmente contra a malignidade da ETA e a cobardia do governo de Zapatero.

sábado, 3 de Fevereiro de 2007

Vida


Que um tema como a despenalização do aborto seja submetido a referendo é coisa reveladora da miséria moral reinante e das diferenças que na comunidade portuguesa existem sobre a importância atribuída à vida humana.

A esquerda, que em Portugal foi responsável pela descolonização que levou a fome a Angola e Moçambique; que impôs nacionalizações que arruinaram empresas; que transformou o Estado num devorador da riqueza nacional, quer agora tornar a eliminação de vidas humanas em crescimento, um assunto privado, uma unilateral escolha da mulher, patrocinada pelo Estado.

O Estado que possui hospitais, que paga salários a enfermeiros e médicos, que comparticipa medicamentos, o Estado que diz defender a vida humana, corre o risco de se transformar numa máquina abortadeira, caso as esquerdas consigam, mais uma vez, vender a sua banha da cobra.

Creches a preços razoáveis rareiam, o abono de família é irrisório, incentivos fiscais para famílias numerosas não existem, e o Estado a preparar-se para gastar entre 800 a 1000 euros por aborto. Ao Estado não lhe basta ser injusto. Quer ainda ser obsceno.


JPC

João Pereira Coutinho é um dos moços mais legíveis deste bizarro país. Conheci-o na fase decadente do O Independente e habituei-me à sua prosa elegante que valoriza as lições e os bons exemplos da História, que espelha permanente aprendizagem, que reflecte uma bagagem cultural que não está ao alcance de todos: JPC sabe que não escreve apenas para si e sabe que quem o lê não é analfabeto. JPC escreve agora na instituição Expresso e na revista Atlântico, já aqui lembrada e sugerida.
Na edição de Fevereiro da Atlântico, JPC informa-nos que vive, confortavelmente, por opção, com a família. E avança alguns argumentos, como a "qualidade gastronómica nunca desilude." A gastronomia é encantar o paladar, mas, infelizmente, porque os homens não aprendem e as senhoras se saturaram, cozinhar é arte em crise de vocações:

"Encontrar uma senhora moderna e emancipada que saiba fritar um bife em condições é um desafio que pode levar o macho lusitano à loucura. Não admira que Sam The Kid, o famoso rapper presente em estúdio, tenha posto o dedo na ferida ao declarar que só deixa a casa da mãe quando encontrar senhora compatível para casar. Um abraço, Sam. E, já agora, um conselho: casar, sim, mas só com garantias de que a donzela sabe cozinhar."

FDUL

Na FDUL há uma elevada percentagem de belezas femininas. Será que o Direito atrai o Belo?

quarta-feira, 31 de Janeiro de 2007

From California


Enquanto não apanho o avião para gozar durante duas semanas a hospitalidade da Madonna, vadio pelo site do OAC - Online Archive of California, cuja riqueza iconográfica, para ser devassada ao pormenor, exigiria um mês de férias: cerca de 120.000 imagens disponíveis para a consulta de qualquer freguês. O OAC é mais uma demonstração da avassaladora capacidade americana de tratamento e difusão da informação produzida.

terça-feira, 30 de Janeiro de 2007

O ciclista


La troisième femme

Cruzei-me com o livro La troisième femme fortuitamente: desarrumava prateleiras na Fnac e eis mais um exemplar da famosa colecção folio essais da Gallimard: o título sugestivo não bastava, pelo que espreitei as folhas. A prosa pareceu-me instrutiva e decidi levar a troisième femme para me fazer companhia na cama. O que já devorei leva-me a crer que qualquer macho, que se preze ou despreze, deveria ler a obra: as mulheres são proveitoso tema e ser um pouco menos ignorante não prejudica. Para meninos e meninas, fica o pedaço que se segue:

"En prenant une certaine distance vis-a-vis du modele donjuanesque, les hommes ont fait un pas vers les valeurs féminines de continuité et d´implication émotionnelle. Les nouvelles atitudes masculines ne traduisent pas la banqueroute de l´identité virile ou l´angoisse envers les femmes, mais l´avancée de l´égalisation des conditions des deux genres dans le domaine de la vie amoureuse."

Lipovetsky, Gilles; La troisiéme femme, p. 72, Éditions Gallimard, Paris, 1997

segunda-feira, 29 de Janeiro de 2007

Dali antes das drogas


Rice


Estimada Condolezza : este blogue deseja que continue o proveitoso exercício das suas elevadas funções e deseja que dentro de pouco tempo seja a primeira senhora a liderar os EUA.
"In real life, power and values are married completely."