
Marcello Caeteno morreu há 30 anos. A sua envergadura intelectual, a sua competência catedrática, o ministro da presidência que coordenou o II plano de fomento, o chefe do Governo que voltou da visita aos territórios ultramarinos maravilhado com o seu crescimento e decidido a não os abandonar, que alargou a previdiência; o exilado amargurado que não desculpou as deslealdades, o orgulhoso indignado com a destruição da obra de "progresso em paz", justificam a lembrança.
Em finais de 1943, Marcello, então comissário-nacional da Mocidade Portuguesa, escreve a Salazar, preocupado e "desiludido" com o que observa e sente. Os custos materiais da neutralidade diminuíam a popularidade do regime. As importações tinham que ser duramente negociadas com os ingleses. Havia dificuldades no abastecimento alimentar e nos transportes, rebentavam greves na cintura urbana de Lisboa, o aparelho corporativo prodigalizava deficiências. Salazar tinha nos trabalhos diplomáticos a sua prioridade. Marcello, com exagero, alertava e criticava.
"Senhor Presidente
Desculpe-me esta nova carta. As outras não foram muito bem sucedidas - e os factos demonstram que foi pena. Mas volto a insistir: era e é necessário cuidar do ambiente moral do País, que está péssimo. Péssimo.
o Governo tem-se mantido, alheado da Nação: não atende, não explica, não apoia, não incita, não dirige. As pessoas mesmo que têm responsabilidades de comando vivem sem directivas. Os descontentamentos são gerais, antigos e descurados: estão descontentes o Exército, a Marinha, a GNR, a Polícia, o funcionalismo... E tudo se deixa andar, e todas s soluções vêm tarde e a más horas, e o Governo só se afirma na repressão... Desprestigiou-se a organização corporativa, deu-se cabo dos Sindicatos Nacionais, abandonaram-se homens e princípios: não admira, por isso, que no momento de crise só se veja tudo a aluir - este panorama terrível de cobardias e de defecções.
Têm ocultado a V. Ex.ª o verdadeiro estado moral do País? O entusiasmo geral pela Rússia? A oposição ao Governo? Só assim se explica que nos momentos graves o Secretariado da Propaganda Nacional se limite a exibir bailados e a Emissora Nacional pouco mais dê que música de dança.
Os métodos de repressão indiscriminada e brutal não são de força. A força é segura de si, equilibrada e justa. Não deixe V. Ex.ª que os seus colaboradores percam esta noção.
E creia na sinceridade do desiludido mas fiel
Marcello Caetano
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